Leonardo Sologuren

Em diversas situações, divulgou-se na mídia ou nos bastidores do mercado, de que os preços pagos aos produtos não geneticamente modificados, conhecidos também como convencionais, seriam mais elevados no mercado internacional e que ao mesmo tempo, a parcela conquistada nas transações internacionais seria incrementada por parte dos países que não são adeptos a produção de transgênicos.

Através deste ponto de vista, os defensores da “agricultura convencional” partiram do pressuposto de que o Brasil seria favorecido pela não produção de transgênicos. Alegaram que os países da Ásia e Europa eram adversos ao consumo de produtos geneticamente modificados, e que o Brasil passaria a ser um dos principais fornecedores de grãos a estes dois continentes.

Para argumentar a hipótese destas tendências, a análise de dados comerciais entre os dois países nos fornece subsídios para averiguar se houve vantagem para o Brasil em comercializar produtos convencionais. Sabendo-se que de fato, o Brasil já é um produtor de soja transgênica, ainda que limitada em maior proporção à região Sul, seria então, muito mais interessante investigar estes dados para o mercado do milho, realizando-se uma análise comparativa entre as transações comerciais de Brasil e Argentina.

A produção de milho geneticamente modificado na Argentina teve o seu início na safra 1996/97, quando foram cultivados apenas 70 mil hectares. Nos últimos cinco anos, a produção de milho Bt na Argentina registrou um crescimento médio anual de cerca de 50%, o que representa 8,0% dos 13,5 milhões de hectares cultivados com produtos geneticamente modificados na Argentina (base ano 2002).

A hipótese de que consumidores europeus e asiáticos refutam os produtos transgênicos poderia ser quebrada pelo padrão de comportamento observado nas exportações de milho da Argentina. Realizando uma análise do período de 1997 a 2003, podemos concluir que os europeus e os asiáticos estão entre os principais importadores de milho da Argentina. A Espanha se destaca em segundo lugar no ranking, com uma aquisição da ordem de 6,23 milhões de toneladas no acumulado do período. O Japão aparece em sexto lugar na lista, com um volume de aquisição de 3,95 milhões de toneladas, enquanto a Coréia do Sul se destaca em oitavo lugar com volume total importado no período de 2,78 milhões de toneladas. Ainda figuram entre os principais importadores, Malásia (9º), Portugal (11º), Taiwan (15º) e Reino Unido (16º), em uma lista que contempla 106 países.

Desde que o Brasil passou a ser um exportador freqüente de milho ao mercado internacional, a Espanha e a Coréia do Sul se destacaram como os dois principais importadores do produto tupiniquim. De 2001 a 2003, a Espanha adquiriu um volume total de milho do Brasil da ordem de 2,01 milhões de toneladas. No mesmo período, a Espanha importou da Argentina 2,32 milhões de toneladas. Já a Coréia do Sul importou do Brasil um volume total de 2,73 milhões de toneladas de 2001 a 2003, enquanto o volume adquirido da Argentina no mesmo período foi de 1,75 milhão de toneladas. Por parte do Japão, o volume adquirido tanto na Argentina quanto no Brasil foi de 1,21 milhão de toneladas.

Poderíamos dizer que, de fato, o Brasil está ocupando uma parcela de mercado que antes era da Argentina, o que é natural ocorrer quando há a entrada de um novo player no mercado. Entrentanto, a Argentina não deixou de abastecer os países europeus e asiáticos. Além do mais, quando os preços são analisados, chegamos à conclusão de que o milho brasileiro não recebe nenhum prêmio por ser livre de transgenia. Em 2003 os preços do milho praticados no porto de Paranaguá foram apenas 0,6% superiores aos preços do milho praticados no porto de Buenos Aires. Em 2001, o preço no porto de Buenos Aires chegou a ser 6,6% superior ao de Paranaguá.

Sabe-se que um dos grandes entraves a competitividade do milho no mercado internacional é a sua baixa produtividade. Enquanto o rendimento médio por área no Brasil foi 3.610 kg/hectare na safra 2002/03, na Argentina o rendimento médio na mesma safra foi de 6.477 kg/hectare. Obviamente, que se poderia argumentar que as condições naturais de cultivo de milho na Argentina são mais favoráveis, o que de fato, é verdade. Todavia, os custos de produção na Argentina tornaram-se ainda mais competitivos com a adoção dos trangênicos, o que deixa o país em vantagem frente ao Brasil.

Ao mesmo tempo, o volume de hectares infestados com lepidópteras prejudiciais a cultura do milho é muito superior em relação à Argentina. Estima-se, que somente no Brasil, mais de 7 milhões de hectares de milho são infestados com tais lepidópteras em uma área de cultivo total de 13 milhões de hectares. Não há dúvida, de que a adoção do milho Bt seria benéfico tanto para a redução dos custos de produção quanto para o aumento da produtividade.

A pergunta que fica neste breve artigo, e que poderia se estender ainda muito mais, é qual a vantagem competitiva do Brasil do ponto de vista comercial em produzir milho convencional frente aos países concorrentes no mercado internacional que produzem milho geneticamente modificado? Em termos de transações comerciais, é possível detectar que não há nenhuma vantagem, seja em termos de preço seja em termos de conquista de mercado. Muito menos do ponto de vista da competitividade como eficiência, onde são analisados fatores como a capacidade de conversão dos insumos em máxima produtividade.

Leonardo Sologuren é engenheiro agrônomo, mestrando em desenvolvimento econômico pela Universidade Federal de Uberlândia, Diretor da Céleres e conselheiro do CIB.