Denise Cantarelli Machado

O consumidor está no supermercado e corre as prateleiras em busca de produtos que já conhece. Vai pegando aqueles de que precisa e de marcas nas quais confia, mas sempre dá uma “olhadinha” nas novidades para ver se lhe interessam.

Nas prateleiras com alimentos, o comportamento é o mesmo, mas o cuidado com produtos novos é maior. Afinal, consumir esses produtos significa “enguli-los”. Quem atua na área de alimentos geneticamente modificados tem plena consciência dessa preocupação e sabe que é justificada. Por isso, uma das providências mais importantes no setor é promover a segurança alimentar, cuidando para que os produtos não causem prejuízo à saúde humana e mesmo animal.

Antes de mais nada, vamos esclarecer que os alimentos geneticamente modificados (GMs) foram desenvolvidos e comercializados por apresentarem vantagens ao produtor e/ou consumidor, tais como menor custo de produção, menor preço, maior valor nutricional e durabilidade do produto.

Falando em credibilidade, porém, temos de reconhecer, infelizmente, que há certa manipulação da mídia e de diversas organizações não-governamentais, aliada à falta de informação da população em geral. Tudo isso resultou numa grande distorção com relação aos riscos e benefícios advindos desta nova tecnologia.

A polêmica sobre os organismos geneticamente modificados, e/ou organismos transgênicos, começou no Brasil em 1995, quando da promulgação da Lei Nacional de Biossegurança. O Brasil foi um dos pioneiros na regulamentação de OGMs, incluindo os transgênicos, e tem sido um exemplo que vem sendo seguido em todo o mundo pelos países que querem regulamentar a manipulação, o consumo, a experimentação, o transporte e o descarte desses organismos e seus derivados.

Muitos produtos agrícolas têm sido geneticamente modificados por meio da transferência de genes que, normalmente, não estão presentes no organismo original (parental). Os alimentos contêm milhares de proteínas, mas poucas delas são alergênicas, ou seja, que causam alergia. A propriedade estrutural das proteínas que causam reações alérgicas não está bem caracterizada. Qualquer tipo de alimento é potencialmente alergênico, independentemente de ser geneticamente modificado ou não. A maioria das reações alérgicas é causada por um pequeno grupo (leite, castanhas, legumes, ovos e frutos do mar).

Os alergenos são proteínas ou químicos capazes de causarem uma reação alérgica. Esta manifestação é iniciada por um processo silencioso chamado de “sensibilização” que ocorre durante o primeiro contato com o alergeno. Um indivíduo que já tenha sido sensibilizado e tiver um contato subseqüente com o alergeno poderá apresentar os sintomas da alergia, que levam à broncoconstrição, dilatação dos vasos sanguíneos, aumento da permeabilidade vascular etc.

A avaliação da segurança alimentar do que é produzido por técnicas convencionais ou geneticamente modificado é fácil de ser realizada quando o potencial causador de alergia do organismo de origem do gene é conhecida. A maior dificuldade está na avaliação do efeito da transferência de um gene de uma proteína desconhecida. Não há um procedimento pré-estabelecido para definir ou predizer sua alergenicidade. Portanto é essencial que os procedimentos de avaliação dessa característica em alimentos GMs estejam bem estabelecidos e que testes sejam desenvolvidos para garantir sua segurança. Não há evidências de que novas proteínas, presentes em alimentos GMs, sejam mais alergênicas que as proteínas tradicionais. Evidências sugerem que a grande maioria dessas proteínas é segura para o consumo. No entanto, se algum alimento GM causar uma reação alérgica séria, a confiança da população com relação aos alimentos transgênicos ficará extremamente abalada.

Os elementos comuns entre avaliação de segurança de alimentos produzidos por métodos convencionais e a de alimentos GMs inclui a comparação do produto final com um que tenha um padrão de segurança já determinado, geralmente o produto similar convencional. A alergenicidade dos alimentos GMs pode ser avaliada por alguns métodos. Estudos relativos à toxicidade e seus efeitos agudos ou crônicos também são realizados.

É investigado também o impacto do novo produto nos níveis de ingestão e seu processamento, além de suas propriedades fisico-químicas e bioquímicas, tais como a estabilidade ao calor, resistência ao processamento, resistência à digestão, percentual de proteína com relação ao conteúdo total são comparadas com as propriedades apresentadas por proteínas alergênicas conhecidas.

Enfim, inúmeros testes são realizados, prévios à liberação comercial desses produtos para garantir, da melhor forma possível, e com os conhecimentos científicos disponíveis, que esses alimentos não ponham em risco a saúde humana e animal.

Devemos lembrar que, graças a essa nova tecnologia, inúmeras pessoas têm se beneficiado e nunca houve dúvidas com relação aos medicamentos produzidos desta forma. Certamente esses novos medicamentos, chamados de proteínas recombinantes, trouxeram benefícios imensuráveis ao pacientes que podem ser tratados com essas novas drogas. O emprego dessas novas tecnologias, aliado ao alto grau de segurança imposto pela Lei Nacional de Biossegurança, permitirá o desenvolvimento de novos medicamentos, vacinas e insumos, trazendo melhor qualidade de vida ao cidadão.

Denise Cantarelli Machado é professora do Instituto de Pesquisas Biomédicas, da Faculdade de Medicina no Hospital São Lucas da PUC-RS.