Por Luiz Alberto Silveira Mairesse

As dificuldades para a aprovação definitiva da Lei de Biossegurança residem hoje, principalmente, na resistência de certos grupos religiosos, encorajados por alguns ambientalistas, em relação à parte que trata de permitir o uso de células-tronco para fins de pesquisa. Os argumentos utilizados são tão inconsistentes que não se pode descartar que, mais uma vez, por trás da suposta fé religiosa, estejam outros interesses que não os dos brasileiros.

A célula-tronco é um tipo de célula capaz de se diferenciar e constituir diferentes tecidos em um organismo. Logo após a fecundação já se inicia a divisão celular e o embrião formado, constituído de algumas poucas dezenas de células e com alguns dias, apresenta um potencial para que se desenvolvam em laboratório mais de 200 tipos de tecidos que formam o corpo. Essas pesquisas abrem espaço para a cura de inúmeras doenças, muitas das quais consideradas ainda hoje incuráveis. Pessoas com doenças neuromusculares, renais, cardíacas, hepáticas, pulmonares, com diabetes ou leucemia, além de muitas outras, poderão se beneficiar. É a esperança concreta inlusive para centenas de milhares de deficientes físicos no Brasil e milhões no mundo.

Entretanto, concepções filosóficas excêntricas e o falso sentimento religioso, que nada têm de cristão, cego para o sofrimento humano, simplesmente sustentam que as pesquisas com células-tronco devem ser proibidas, pois que já “são vidas”, ou que os cientistas estão interferindo na vida, o que não é permitido ao homem. Os cientistas estariam também querendo “imitar Deus”. Mas quem são esses “iluminados”, que se julgam conhecedores dos desígnios de Deus?

Ora, vida existe em qualquer célula, seja ela isolada ou não. Até mesmo em uma célula haplóide, como o óvulo ou um dos milhões de espermatozóides de uma ejaculação. O embrião a ser utilizado é constituído de algumas poucas dezenas de células. Pelo raciocínio filosófico-religioso, não importa nem mesmo que os milhares de embriões congelados, existentes hoje no Brasil, tenham como destino o lixo, ao invés de salvarem vidas humanas ou trazer paraplégicos, cegos e outros deficientes para o convívio social. Células-tronco são vivas, mas não são vidas humanas. Antes de se diferenciarem, são tão somente o potencial para a vida humana.

Esses mesmos grupos “tecnófobos” já foram contra os transplantes de órgãos. Muito antes, as vacinas já foram consideradas pelos “falsos profetas” como tentativas de rebeldia contra Deus, pois significava não aceitar seus desígnios. Tanto que o médico inglês Jenner, inventor da primeira vacina contra a varíola, foi excomungado pela Igreja, acusado de ter “parte com o demônio”.

O que hoje acontece não é mera coincidência, mas os interesses principais em torno do assunto podem ser outros. Não estará, por trás disso tudo, o projeto do “Apartheid tecnológico”, visando a atrasar nossa pesquisa, impedindo o desenvolvimento da tecnologia? Se mais uma vez nos vencerem, daqui a alguns poucos anos estaremos pagando custos altíssimos para tratamento de doenças fora do Brasil e, novamente, restarão aos mais pobres soluções adiadas.

Luiz Alberto Silveira Mairesse é melhorista de plantas, doutorando na Universidade Federal de Santa Maria e conselheiro do CIB.