*Décio Gazzoni

decio-gazzoni_320x200Há necessidade urgente de fornecer microbicidas anti-HIV eficazes, para áreas mais pobres mundo. Alguns dos mais promissores candidatos são bioterapêuticos que impedem a infecção viral. Para atingir adequadamente as áreas mais pobres, é vital reduzir o seu custo. Neste estudo relatamos a produção de cianovirina, um composto recombinante biologicamente ativo, que é uma proteína antiviral presente em sementes de soja geneticamente modificadas. Assim começa o artigo (Engineering soya bean seeds as a scalable platform to produce cyanovirin-N, a non-ARV microbicide against HIV) publicado na prestigiosa revista Plant Biotechnology Journal, assinado por cientistas brasileiros, americanos e ingleses, alguns deles meus amigos, colegas da Embrapa. Interessados podem acessar o estudo por este link.

O primeiro fármaco “transgênico” foi obtido da bactéria Escherichia coli, que recebeu genes humanos para produzir insulina. Desde que ingressou no mercado, centenas de milhões de diabéticos melhoraram sua qualidade de vida e muitas vidas foram prolongadas, com qualidade.

A transgenia sempre foi mais bem aceita na medicina e na farmácia do que na agronomia. Com a melhora da percepção pública em relação a transgênicos, o estudo acima permitirá que uma planta produza um medicamento que salvará milhões de vidas, por impedir a multiplicação do vírus HIV no organismo. Esses efeitos positivos da cianovirina foram comprovados em 2008, em testes realizados com macacos nos EUA.

Apesar de haverem sido testadas diversas plantas, a melhor opção para a produção de cianovirina é o grão de soja transgênica, porque permite que a proteína seja produzida em grande escala. Aliado a esse fato está o baixo custo do investimento requerido na produção da soja para extração do fármaco.

Ao comentar a descoberta, a prestigiosa revista Science publicou que “…se a soja geneticamente modificada for plantada em uma estufa de 100m2, é possível fornecer cianovirina suficiente para proteger uma mulher da infecção por HIV durante 90 anos, 365 dias por ano”. Torcemos para que a cianovirina, barata e eficiente, logo esteja no mercado.

Artigo originalmente publicado no Jornal de Londrina.

* Décio Gazzoni é engenheiro agrônomo, pesquisador da Embrapa Soja e conselheiro do CIB