* Roberto Rodrigues

roberto-rodrigues_320x200A agricultura vai enfrentar diversos desafios no século 21. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação – FAO/ONU – a população mundial deve chegar a 9 bilhões de pessoas em 2050. Esse crescimento demográfico vai impor a necessidade de produzir mais alimentos e fibras sem aumentar muito as fronteiras agrícolas, preservando o meio ambiente e em um cenário de redução da força de trabalho rural. Nos países em desenvolvimento, projeções apontam que a produção de cereais e de proteína animal, por exemplo, teria que quase dobrar. Para resolver essa equação em consonância com os preceitos da sustentabilidade, uma das alternativas mais óbvias é aumentar a produtividade.

O uso de tecnologias inovadoras na agricultura é fundamental para atingir esse objetivo e, sem dúvida, a biotecnologia é uma ferramenta poderosa. Dados do mais recente relatório do Serviço Internacional para Aquisição de Aplicações em Agrobiotecnologia (ISAAA) mostram que os transgênicos, desde sua introdução, em 1996, deram importante contribuição para alcançar essa meta. Desde aquele ano, quando começaram os plantios de variedades transgênicas, a produção de grãos e fibras teve um incremento de 377 milhões de toneladas: se não fosse isso, seriam necessários 123 milhões de hectares adicionais para obter o mesmo desempenho.

Na safra 2006/2007 aqui no Brasil, imediatamente antes da aprovação do primeiro milho transgênico pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança – CTNBio (2007), a produtividade do cereal foi de 3,6 mil kg por hectare (ha) de acordo com dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Na safra 2013/2014, a previsão é que esse número seja de 5,1 mil kg por ha. Cerca de 81% das lavouras da commodity foram plantadas com variedades GM no último ano. Da mesma maneira, a soja em 1997/1998 (antes da primeira aprovação, em 1998) rendia 2,3 mil kg por ha; hoje, 3 mil kg por ha, com uma taxa de adoção de sementes transgênicas superior a 90%. Esses dados apontam para uma significativa contribuição da biotecnologia para a produtividade do milho e da soja no País. Claro que essa não é a única causa, mas seu peso é expressivo.

Aliás, os transgênicos otimizaram o uso de insumos agrícolas. As características já introduzidas pela transgenia, tolerância a herbicidas e resistência a insetos, permitem ao agricultor maior flexibilidade e segurança no manejo. É claro que quanto mais tecnologias estiverem disponíveis, maior o potencial produtivo. Especialmente nas zonas tropicais, a competitividade do agronegócio está intimamente ligada à aplicação de ferramentas tecnológicas para superação de limitações e adição de novas funcionalidades.

Vale ressaltar que a referida produção adicional de 377 milhões de toneladas foi conseguida apenas com a introdução de características agronômicas. Com o desenvolvimento de plantas GM que visam diretamente melhoras de produtividade, o potencial de contribuição da biotecnologia para a sustentabilidade será ainda maior. Cientistas de todo o mundo estudam plantas com características complexas modificadas, cuja expressão envolve vários genes, a exemplo da tolerância a estresses abióticos (seca, inundações e solo com alta salinidade). O futuro também aponta para a criação de outros transgênicos (cana-de-açúcar, eucalipto, laranja, trigo, feijão, berinjela além dos tradicionais soja, milho e algodão) que contenham propriedades agronômicas, nutricionais ou sintetizem compostos medicinais.

No Brasil, instituições públicas e privadas de pesquisa e ensino desenvolvem novas variedades por meio da engenharia genética. A combinação de técnicas de melhoramento genético convencionais e biotecnológicas é uma valiosa opção para garantir a segurança alimentar, preservar o meio ambiente e, ao mesmo tempo, alimentar a todos.

* Coordenador do Centro de Agronegócio da FGV, Embaixador Especial da FAO para as Cooperativas e Presidente da Academia Nacional de Agricultura (SNA)