Adriana Brondani*

adriana_320x200A comunidade científica, de tempos em tempos, se depara com raros artigos científicos que contradizem conclusões consolidadas pelas principais instituições mundiais. Na ampla maioria dos casos, as conclusões que tais artigos apresentam não se confirmam após sua publicação.

É o que acontece em relação à segurança de alimentos derivados de organismos geneticamente modificados (OGM), conhecidos popularmente como transgênicos. As principais instituições científicas internacionais já se pronunciaram sobre o assunto e declararam que os transgênicos são sujeitos a rigorosos testes de segurança alimentar e ambiental antes de serem comercializados. Mais que isso, elas afirmam que o decorrente acúmulo do conhecimento científico sobre o tema e do rigor das metodologias empregadas nas avaliações de riscos tornam os produtos transgênicos que chegam aos consumidores tão seguros quanto os equivalentes não-transgênicos. Este é o entendimento da Organização Mundial de Saúde (OMS), da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), da Autoridade Europeia de Segurança Alimentar (EFSA), da Comissão Europeia e de todas as Academias de Ciência que se posicionaram sobre o tema.

Em meio à convergência da comunidade científica, já surgiram artigos que contestaram a segurança de alimentos geneticamente modificados, o que é natural e faz parte do processo de construção de conhecimento. De fato, apenas após a publicação de um artigo em revista especializada é que os dados se tornam conhecidos pela comunidade científica e esta pode julgar se as conclusões são consistentes. No caso da segurança de alimentos GM, após a publicação dos poucos artigos que apresentavam dados apontando riscos, estes puderam ser analisados por especialistas – que demonstraram conclusões equivocadas, falsas. Por vezes, tais artigos receberam até retratação por conta dos periódicos, ou seja, foram invalidados como publicação científica.

Nesta semana, um artigo publicado na revista Food and Chemical Toxicology sugere que ratos alimentados com milho geneticamente modificado morrem antes e sofrem de câncer com mais frequência que ratos que consumiram milho não-transgênico.

Como já comentado, artigos dessa natureza não são novos e quando avaliados por especialistas com alta formação técnica demonstram sua fragilidade. O que chama a atenção no novo artigo é que os dados são tão inconsistentes que mesmo pessoas sem formação científica conseguem compreender porque as conclusões são equivocadas.

Para citar apenas um dos aspectos equivocados do estudo, os dados apresentados abaixo demonstram o número de mortes de ratos alimentados com ração contendo 0%, 11%, 22% e 33% de milho GM:

% de milho GM Número de ratos mortos
0% 3
11% 5
22% 1
33% 1

Um dos alicerces da toxicologia é exatamente que os efeitos tóxicos aumentam com o aumento da dose do veneno. De fato, ninguém precisa ser cientista para intuir que no experimento em questão, quanto maior a dose do suposto “veneno”, maior deveria ser o índice de mortes. No entanto, uma pessoa mal intencionada pode simplesmente desconsiderar os dois últimos resultados e concluir que a alimentação com milho GM aumenta o índice de mortes.

É basicamente isso que os autores fizeram. Em uma das principais conclusões do estudo, os autores afirmam que em alguns tratamentos com milho GM, a mortalidade chegou a 50% contra 30% do controle (5 mortes contra 3), e simplesmente desconsideraram que nas dietas com maior quantidade de milho GM os índices de mortalidade caem.

Curioso reparar que alguém igualmente mal intencionado e que queira fazer propaganda enganosa favorável aos alimentos GM poderia concluir o contrário: que a alimentação com milho GM reduz o índice de mortes, o que seria outro contrassenso. Não é assim que o conhecimento científico deve ser construído.

Além dos erros técnicos, existem evidências de um viés ideológico nas conclusões do estudo, já que alguns dos cientistas envolvidos na pesquisa apresentam um claro histórico ideológico de militância contra produtos transgênicos.

Felizmente, a metodologia científica tem como padrão a revisão dos artigos científicos após as publicações. O método permite que estudos conduzidos de forma inadequada sejam revisados por pares, ou seja, por especialistas no tema, e que o conhecimento científico avance baseado em evidências concretas. De fato, um dia após a publicação do artigo, a revista News Scientist já demonstra os equívocos e inconsistências técnicas do estudo. O material, em inglês, está disponível neste link.

*Adriana Brondani é doutora em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), diretora-executiva e porta-voz do Conselho de Informações sobre Biotecnologia.