Qual foi a última vez que você viu uma banana? Provavelmente não deve fazer muito tempo. Na próxima oportunidade, aproveite, ela pode ser última. A extinção da banana pode estar próxima. Essa já é a segunda vez que a fruta enfrenta essa ameaça e, baseados na experiência anterior, temos motivos para preocupação. 

Antes da extinção da banana

1948, antes da extinção da Gros Michel | Crédito: Library of Congress

Até 1950 a banana tinha algumas características diferentes das que conhecemos hoje, a exemplo de gosto e aparência. Naquela época, a variedade plantada era conhecida como Gros Michel. Era cultivada principalmente na América Central e exportada para todo o mundo.

Acontece que a plantação de banana é feita por meio da produção de clones de uma única planta mãe. A isso damos o nome de propagação por muda, não por semente. Por um lado, essa técnica é vantajosa pois todas as plantas são iguais (apresentam o mesmo tamanho, cor e sabor) e, logo, podem ser cultivadas da mesma forma. O que é extremamente prático para produtores e indústria.

Por outro lado, ao plantar dessa maneira, estamos criando clones de uma única planta e isso faz com que todas as bananas sejam geneticamente iguais. Assim, se um microrganismo conseguir infectar uma planta, será capaz de infectar todas.

A clonagem diminui a diversidade genética, que é extremamente importante para que exista variabilidade dos genes. Isso é fundamental para o desenvolvimento de plantas resistentes a organismos que podem causar doenças.  A diversidade genética pode evitar que um único microrganismo acabe com uma espécie vegetal e é a base para o melhoramento genético.


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O Mal do Panamá e a extinção da banana

Banana infectada com o fungo Fusarium oxysporum | Crédito: Environment move

Na década de 1890 os produtores de banana enfrentaram um fungo mortal, o Fusarium oxysporum. Esse fungo vive no solo e entra em contato com a planta pela raiz. Ele impede que ela retire água e nutrientes do solo, levando-a morte. A doença foi identificada pela primeira vez no Panamá e por isso ficou conhecida pelo nome do local. 

Em 1950 os produtores de bananas Gros Michel perderam a guerra contra o fungo. O Fusarium oxysporum não foi eliminado por nenhum fungicida ou defensivo agrícola, permanecendo no solo. Nessa época, ele já tinha se alastrado por todo o planeta e já não existia área viável para as plantações de banana.

Como as bananas eram geneticamente iguais, a devastação foi inevitável. Quando uma bananeira ficava doente, havia uma enorme chance de todas as outras também ficarem. Esse cenário era ainda pior quando as plantas estavam em contato umas com as outras ou muito próximas, exatamente o que acontece em plantações.

Se você não tiver mais que 70 anos, provavelmente nunca provou uma banana Gros Michel. Dizem que ela era mais adocicada e saborosa.

A salvação da lavoura

Uma bananeira conhecida como Cavendish, cultivada em um palácio na Inglaterra, porém, era geneticamente diferente da Gros Michel. Para a sorte dos produtores, essa variedade foi capaz de resistir ao Mal do Panamá e passou a ser plantada nas regiões que estavam infestadas pelo fungo.

Atualmente as bananas Cavendish são as mais conhecidas. No Brasil, são chamadas de banana nanica ou d’água. Apesar de hoje existirem algumas variedades diferentes, como a “maçã” e a “prata” (plantadas no Brasil e suscetíveis ao Mal do Panamá), a Cavendish é a mais produzida e comercializada pelo mundo.

Um novo risco de extinção da banana

Você pode estar pensando, então, que não precisa se preocupar com esse assunto. Não é bem assim. Atualmente, a banana está correndo sério risco mais uma vez. O fungo do Mal do Panamá evoluiu e agora ameaça também as plantações de Cavendish. Como a forma com que a produção de banana é realizada não mudou (agricultores continuam utilizando clones), as plantações de Cavendish estão em perigo pois não apresentam nenhuma resistência contra o novo Fusarium oxysporum. Isso pode levar à extinção da banana.

O novo fungo é ainda mais agressivo e foi descoberto na década 1990 no sul da Ásia. Hoje ele já é encontrado na Austrália e países do norte da Ásia, como China, um dos maiores produtores de banana no mundo. Mais de 10 mil hectares de plantações de banana Cavendish já foram destruídos no país.

 

Biotecnologia para salvar as bananas

Para que a extinção da banana não ocorra, é necessário impedir o avanço da doença por meio de medidas de controle de exportação/importação. Cientistas também trabalham com o objetivo de encontrar ou desenvolver uma nova variedade que seja resistente ao fungo e que agrade ao paladar da população mundial. Entretanto, por conta da forma com que a banana sempre foi cultivada, encontrar variedades geneticamente diferentes é raro.

Uma banana encontrada na ilha de Madagascar, porémpode servir como fonte de genes de resistência e salvar a produção da fruta. Mas apesar de ela não sofrer com o Mal do Panamá, por outras razões, já corre risco de extinção. Exatamente por isso um esforço deve ser feito para preservá-la. Ela pode conter genes de interesse que poderiam ser transferidos para a Cavendish por cruzamento ou por técnicas de biotecnologia.

A biotecnologia, aliás, pode ajudar a aumentar a variabilidade genética dessas plantas por meio da indução de mutações na cultivar e também pelo desenvolvimento de plantas geneticamente modificadas. Essas aplicações foram facilitadas pelo sequenciamento dos genomas do fungo e da planta em 2012 e 2013, respectivamente.

Outra alternativa foi a encontrada por pesquisadores da Holanda. Em uma tentativa de produzirem banana sem usar terra, local onde o fungo vive, conseguiram cultivar banana em estufas utilizando fibras de coco e lã mineral como solo.


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Biotecnologia


Bananas do Brasil

No Brasil, a bananeira é cultivada de norte a sul, colocando o País como quarto maior produtor de banana do mundo. A fruta é a mais consumida no País. Como o fungo mortal ainda não chegou por aqui, medidas preventivas devem ser adotadas e, em paralelo, investir na pesquisa por variedades resistentes. 

Fonte: Redação CIB, Março de 2019