A FAO (Food and Agriculture Organization), ligada às Nações Unidas, publicou dois relatórios recentes que abordam a biotecnologia vegetal, envolvendo técnicas como as plantas geneticamente modificadas (transgênicas), genômica, melhoramento assistido e vacinas animais. O 1º relatório, intitulado “Efeitos Ambientais dos Organismos Geneticamente Modificados”, foi elaborado por um grupo de 16 especialistas de diferentes países, convidados pela FAO para uma reunião que ocorreu no ano passado, em Roma. Dentre outros pontos, os especialistas posicionaram-se contrariamente às generalizações e recomendaram que os benefícios e riscos potenciais das plantas GM ao meio ambiente devem ser avaliados caso a caso.

Já o relatório “A Situação da Alimentação e da Agricultura em 2003-2004” dá destaque ao papel que a biotecnologia vegetal poderá desempenhar nos países em desenvolvimento. Hoje, mais de 70% da população mundial vive em áreas rurais e depende da agricultura para sua sobrevivência. Adicionalmente, o setor agrícola terá que sustentar dois bilhões a mais de pessoas nos próximos 30 anos. Segundo a FAO, o desenvolvimento de tecnologias que combinem múltiplos objetivos – aumento da produtividade, diminuição dos custos de produção e proteção do meio ambiente –, constitui um grande desafio para a humanidade.

O relatório afirma que a biotecnologia deverá complementar a agricultura convencional, acelerando a obtenção de novas variedades vegetais e oferecendo alternativas para os casos em que os métodos convencionais são pouco efetivos. A biotecnologia é capaz de auxiliar na produção de plantas livres de doenças e no desenvolvimento de variedades resistentes a pragas, o que reduz o emprego de alguns defensivos agrícolas que prejudicam o meio ambiente e a saúde humana.

O relatório afirma que, até o momento, basicamente os produtores rurais dos países desenvolvidos têm se beneficiado da biotecnologia vegetal, e a ciência não tem dado a atenção devida aos alimentos básicos consumidos pela população carente, como é o caso da mandioca, batata, arroz e trigo. Um exemplo clássico é o das plantas geneticamente modificadas, que tiveram 99% de sua área cultivada em seis países (Estados Unidos, Argentina, Brasil, Canadá, China e África do Sul), envolvendo quatro culturas (soja, milho, canola e algodão) e dois atributos (tolerância a herbicidas e resistência a insetos).

Uma das principais barreiras para a adoção da biotecnologia vegetal por muitos países em desenvolvimento tem sido a falta de pessoal qualificado para as pesquisas, pois a maior parte desses paises não investe o suficiente nessa tecnologia. Outros, como Brasil, China e Índia, dispõem de programas públicos de pesquisa na área agrícola, com gastos anuais inferiores a meio bilhão de dólares. Já as dez maiores corporações multinacionais de capital privado investem anualmente quase U$ 3 bilhões em pesquisa e desenvolvimento no setor de biotecnologia vegetal.

De acordo com a FAO, nos poucos países em desenvolvimento nos quais as lavouras transgênicas foram introduzidas, o uso de defensivos agrícolas foi reduzido e os pequenos agricultores estão sendo beneficiados economicamente. Os ganhos por hectare com a utilização dos transgênicos são consideráveis quando comparados com outras inovações tecnológicas introduzidas em décadas recentes. Na China, por exemplo, cerca de 30% da área com algodão é cultivada com algodão transgênico resistente a insetos, beneficiando mais de 4 milhões de pequenos agricultores. A produtividade média obtida com o algodão transgênico é 20% superior àquela do algodão convencional, e os gastos com inseticidas são 70% menores. O uso de defensivos agrícolas em toda a China foi reduzido em cerca de 25% depois da introdução do algodão transgênico e, conseqüentemente, o índice de envenenamento dos agricultores que cultivam o algodão transgênico foi reduzido, informa o relatório.

Do ponto de vista de segurança, de maneira geral no meio científico os transgênicos e seus produtos são aceitos como seguros para a alimentação humana. A divergência é intensa no que diz respeito à segurança ambiental. Pesquisas que visem esclarecer dúvidas legítimas devem ser conduzidas antes da liberação comercial de plantas transgênicas, devendo ainda haver um monitoramento ambiental pós-liberação. A realização dos testes de biossegurança é a garantia de que as lavouras transgênicas não causarão impacto ao meio ambiente, e que serão eficientes no controle de pragas, evitando a necessidade de utilização adicional de defensivos químicos e evitando o surgimento de pragas resistentes.

Embora o relatório da FAO enfatize a necessidade de monitoramento constante, destaca que efeitos ambientais adversos causados pelas lavouras comerciais de transgênicos não foram observados até o momento, mas que seus benefícios são bem conhecidos.


Marcos Rodrigues de Faria é engenheiro agrônomo, pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia e conselheiro do CIB