O pesquisador e engenheiro agrônomo Francisco Aragão é um dos coordenadores do projeto de desenvolvimento de uma variedade de feijão transgênico resistente ao vírus do mosaico dourado. Aragão, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, e Josias Faria, da Embrapa Centro de Arroz e Feijão, estão em fase final desse trabalho pioneiro realizado aqui no Brasil. Em entrevista ao Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB), o pesquisador fala sobre os benefícios que podem ser gerados com o cultivo do feijão transgênico, entre eles, a diminuição das perdas, a garantia da colheita e a redução das aplicações de inseticidas.

CIB – A mídia noticiou recentemente o desenvolvimento de feijão transgênico pela Embrapa. Qual a principal característica dessa variedade?

Francisco Aragão – O feijão GM que estamos desenvolvendo aqui na Embrapa é uma variedade resistente ao vírus mosaico dourado. Esse vírus, muito freqüente no Brasil e em toda a América Latina, é transmitido pelo inseto mosca branca.
As perdas no cultivo causadas pelo mosaico dourado dependem do estágio de desenvolvimento da planta, das condições climáticas e da quantidade de moscas brancas, e podem afetar de 40% a 100% da plantação.
O controle da doença também pode ser feito por meio do uso de inseticidas que matam o inseto transmissor. No entanto, sua aplicação muitas vezes é feita de forma preventiva e nem sempre é viável para pequenos e médios produtores.

CIB – Em que fase está o processo?

Aragão – A Embrapa já desenvolveu duas linhagens de feijão resistentes ao vírus, por meio da técnica chamada de RNA interferente. O processo é basicamente o seguinte: a planta transgênica produz fragmentos muito similares ao RNA do vírus, fazendo com que o RNA transgênico ative o mecanismo celular que leva à inativação do RNA viral, caso o vírus esteja presente.
Com a inativação, o vírus não se multiplica e, portanto, não há a doença.

CIB – E quais os benefícios do feijão transgênico em relação às variedades convencionais?

Aragão – Basicamente a variedade transgênica de feijão garante vantagens econômicas e ambientais. O benefício econômico se dá com a diminuição das perdas e a garantia das colheitas. O benefício ambiental é que, com a variedade GM, a aplicação de inseticidas é feita em menor quantidade, diminuindo assim o impacto ao meio ambiente.

CIB – O cultivo do feijão GM é de fato mais barato que o convencional? Por quê?

Aragão – A variação do preço do feijão acontece quando a safra é prejudicada, pois a oferta diminui. A variação de preços acontece principalmente porque as safras são prejudicadas por doenças e pela seca.
Com a variedade GM, a planta é resistente ao vírus e as perdas diminuem e, conseqüentemente, o preço pode se estabilizar. É importante ressaltar que o vírus do mosaico dourado é grande responsável pelas perdas no plantio de feijão no Brasil.

CIB – Como são as análises de segurança para que se ateste que o feijão GM é mesmo seguro para o consumo humano?

Aragão – As análises são feitas por meio de ensaios de biossegurança. Começamos com esses ensaios em 2005 e, especificamente em relação à linhagem resistente ao mosaico dourado, em 2006.
Os ensaios de biossegurança acontecem em 4 fases:

1ª fase) Caracterização molecular: nessa fase se determinam onde os genes foram integrados e como são transmitidos para a próxima geração;

2ª fase) Caracterização agronômica: é feita a comparação das variedades GM com as variedades convencionais. É feita também uma busca por diferenças entre as duas, além da característica desejada. É importante ressaltar que só teremos um produto se nessa fase não for identificada nenhuma característica indesejada;

3ª fase) Análise de segurança alimentar: são analisadas as diferenças na composição das duas variedades e seus fatores nutricionais. Também acontecem experimentos com animais para verificar possíveis efeitos negativos, checando seus genes e as gerações descendentes;

4ª fase) Análise de segurança ambiental: são analisados o fluxo gênico e os efeitos sobre organismos não-alvos (por exemplo, microorganismos e insetos benéficos).

Caso não sejam encontrados efeitos negativos em nenhuma dessas fases, é feito o pedido de liberação comercial à Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). O feijão GM resistente ao mosaico dourado está no último estágio de avaliação, sendo testado em campos em diferentes regiões e diferentes épocas do mesmo ano. As sementes colhidas são analisadas e comparadas entre si em um banco de dados.
Gostaria de ressaltar que o Brasil tem órgãos competentes para realizar essa avaliação. Os protocolos definidos para avaliar a segurança são seguros, visto que, há mais de 20 anos, todos os experimentos que se mostraram seguros na análise também se mostraram seguros após sua liberação, ratificando a credibilidade do protocolo.

CIB – É possível ter uma previsão de quanto tempo o feijão GM estará disponível para comercialização?

Aragão – Não existe um prazo determinado para a liberação comercial do feijão GM. Pretendemos fazer o pedido de liberação à CTNBio em 2009. No entanto, também não há como prever o tempo que levará para que a Comissão avalie e autorize a liberação comercial. E mesmo depois da autorização, ainda existe um período para o registro das variedades.
No entanto, gostaria de frisar que o feijão GM mostra que a esperança de termos uma variedade transgênica totalmente brasileira está perto de se tornar realidade.

CIB – Economicamente, o que significa para o Brasil ser o primeiro país a desenvolver feijão GM?

Aragão – O feijão é uma cultura importantíssima em vários países, como a Índia e países da América Latina e da África. A Embrapa é referência em pesquisa com feijão, procurada inclusive por países como Estados Unidos, Caribe e México, que também apresentam problemas no cultivo do feijão.
A Embrapa também já iniciou estudos de feijão tolerante ao mofo branco e tem planos para começar estudos de feijão tolerante à seca.

CIB – Como o senhor analisa os dados recentes que apontam o crescimento da produção GM no mundo e, especialmente, no Brasil?

Aragão – A tecnologia é importantíssima para todos os países com forte atividade agronômica. Canadá e Argentina, por exemplo, são países adiantados na questão do desenvolvimento de variedades GM para aumentar a rentabilidade dos cultivos na agricultura.
O Brasil ainda está atrasado em relação a esses países, devido principalmente à legislação e ao modo como a discussão é feita em nosso País. Para se ter uma idéia, a CTNBio avalia hoje produtos liberados há 15 anos em outros países, o que representa um grande atraso econômico para nós.

O baixo nível de conhecimento e a desinformação das pessoas leva as discussões sobre o assunto para um caminho que não é correto, sem embasamento científico, econômico ou social, o que contribui para que as pessoas, de modo geral, continuem não compreendendo a importância dos transgênicos para o Brasil.
A difusão da informação correta é essencial para que possamos formar nossas próprias opiniões, mas sempre levando em conta os dados científicos disponíveis em todo o mundo.