A parceria universidade-empresa é o grande diferencial para o futuro dos estudos científicos no Brasil, aponta o professor Carlos Alberto Labate, do Departamento de Genética da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP). Labate lidera pesquisas avançadas de desenvolvimento genético do eucalipto, com apoio da iniciativa privada, colocando o País em vantagem no cenário mundial de produção e comércio do produto. Em entrevista ao CIB, ele considera a Lei de Inovação, que prevê o acerto de regras para o acordo público-privado, fundamental para a ciência brasileira.
Leia abaixo a entrevista completa:

CIB – A falta de investimentos financeiros tem sido o drama para as pesquisas científicas das universidades brasileiras. Com recursos da iniciativa privada, a sua equipe obteve grandes avanços na melhoria genética do eucalipto. Do que se trata essa pesquisa? O que foi feito e quais resultados foram obtidos?
Carlos Alberto Labate – Realmente a falta de recursos para pesquisa tem sido crônica no Brasil. No nosso caso, a parceria com a iniciativa privada possibilitou um fluxo de recursos constante no laboratório. A parceria com a Cia Suzano de Papel e Celulose teve início em 1998 com o primeiro projeto para desenvolver um método de transformação genética do eucalipto. Ao final desse projeto obtivemos as primeiras plantas transgênicas de eucalipto e solicitamos os direitos de patente da metodologia, além de termos formados vários alunos e técnicos.
O sucesso inicial estimulou a empresa a investir mais, e assim iniciamos um novo projeto no ano 2000 para a clonagem de vários genes de eucalipto associados à biossíntese da celulose e outros compostos de interesse à qualidade da madeira. O objetivo desse projeto é o de modular a expressão de algumas enzimas consideradas importantes para a biossíntese de celulose e, dessa forma, aumentarmos esse componente na madeira do eucalipto. O projeto possui duas linhas de abordagem: uma tem por objetivo a clonagem e expressão dos genes de interesse em plantas de fumo e Arabidopsis, que servem com sistema modelo para avaliarmos o impacto de cada gene(s) na formação do xilema.Como essas plantas modelo possuem um crescimento rápido e são fáceis de serem transformadas, isso permite avaliar rapidamente os genes que temos interesse. Uma vez obtidas essas informações, os genes que apresentaram os melhores resultados são introduzidos no eucalipto utilizando a metodologia de transformação genética que desenvolvemos. No momento, estamos realizando a clonagem de vários genes e transformando o fumo e Arabidopsis, e já iniciamos a transformação do eucalipto. Nos próximos dois anos teremos um bom volume de informações sobre as estratégias que estamos utilizando.

CIB – O senhor disse que, no setor florestal, nossas pesquisas estão equiparadas com o cenário mundial. Porquê?
Labate – O Brasil foi pioneiro no uso do eucalipto para a produção de celulose e papel, sendo hoje o principal produtor de polpa de celulose de fibra curta. Nos últimos 30 anos, o melhoramento florestal teve um grande desenvolvimento, principalmente com o estabelecimento dos plantios clonais, que melhoraram bastante a produtividade e qualidade da madeira produzida. Além disso, o ambiente também favorece, permitindo que uma árvore esteja pronta para corte em sete anos, enquanto no hemisfério norte são necessários pelo menos 20 a 30 anos ou mais! Essas vantagens foram muito bem aproveitadas pelas empresas de papel e celulose, que associaram um forte programa de seleção e melhoramento genético, o que não é a regra em outros países, como os EUA, Canadá, Suécia e Finlândia, que exploram florestas naturais. Apesar de todos esses fatores favoráveis, é importante que essa liderança seja mantida. E a biotecnologia é fundamental para continuarmos à frente.

CIB – O caso do eucalipto pode servir de exemplo para pesquisas biotecnológicas com outras culturas?
Labate – É difícil estabelecer um modelo de pesquisa que atenda a todas as culturas. Com certeza podemos dizer que nas culturas onde o Brasil é forte, como no caso do eucalipto, citros, cana-de-açúcar, entre outras, precisamos manter a competitividade, utilizando de todas as ferramentas que dispomos, seja o melhoramento convencional seja a biotecnologia. É importante que tenhamos sempre em mente que o sucesso da biotecnologia depende dos programas de melhoramento genético, se não tivermos materiais genéticos adaptados às nossas condições e com boa produtividade, a biotecnologia por si não vai fazer milagres, independentemente da cultura.

CIB – Além da tecnologia, a natureza do Brasil favorece alguma vantagem sobre outros países com relação à cultura de eucaliptos?
Labate – Como mencionei anteriormente, o clima subtropical é excelente para o cultivo do eucalipto, possibilitando o corte das árvores e produção de uma grande quantidade de biomassa em cerca de sete anos, enquanto nos países do hemisfério norte a colheita ocorre após 20 a 30 anos ou até mais.

CIB – O que o senhor pensa a respeito da Lei da Inovação, em debate no Congresso? Quais os pontos fortes e fracos do texto e como pode “soltar as amarras” da pesquisa científica?
Labate – Acho essa lei fundamental para a ampliação das parcerias universidade-empresa. O sistema público de pesquisa é extremamente burocratizado, impõem restrições que não fazem sentido nos tempos modernos. A universidade tem um papel fundamental no desenvolvimento do país, quer seja formando pessoal, gerando tecnologias, ou transferindo o conhecimento à sociedade. A nossa realidade impõe a necessidade de criarmos um modelo brasileiro de parceria, não é viável importamos modelos de outros países, precisamos criar o nosso sistema de parcerias.
A Lei de Inovação oferece essa possibilidade, permite às empresas se associarem aos laboratórios, aos pesquisadores deixarem a universidade por um período para iniciarem novas empresas ou mesmo assumirem cargos no setor privado. O objetivo disso é possibilitar às empresas a aquisição de novas tecnologias, inovando na produção para ganharem novos mercados.
Um ponto que considero um pouco confuso diz respeito à necessidade de se fazer licitações para a exploração de tecnologias desenvolvidas pelas parcerias. Acredito que o correto é que a empresa que participa da inovação tenha preferência na utilização do invento, sem a necessidade de se fazer licitação. Caso as partes (universidade-empresa) desejem comercializar a tecnologia, isso deve ser feito de comum acordo, podendo então utilizar a licitação. Essa questão não está bem clara na proposta atual. Esse ponto deve ficar bem claro, pois caso contrário, pode afastar o interesse de investidores com capital de risco que desejam investir nas universidades. Por outro lado, acho que ainda falta o estabelecimento de escritórios especializados em negócios nos centros universitários. Os pesquisadores ainda são amadores no estabelecimento das parcerias com o setor privado. Muitas vezes não sabemos negociar os contratos, da mesma forma não sabemos o que podemos assinar.

CIB – É possível fazer boa ciência apenas com parceria empresarial, sem uma estratégia que contemple interesses globais do País? Nesse sentido, qual seria o modelo ideal?
Labate – A boa ciência é condição fundamental para a parceria com empresas. No nosso caso, estamos fazendo tanto pesquisa básica quanto aplicada. Sinceramente, não consigo visualizar uma distinção entre as duas. O Brasil tem se mostrado uma potência no agronegócio sucesso construído ao longo dos últimos anos com as pesquisas de instituições públicas e do setor privado. Para continuarmos esse sucesso é preciso avançar ainda mais e forte. Os nossos competidores estão atentos e investem pesado em áreas como genômica, proteômica e todas as “ômicas” que podemos imaginar.
Se não fizermos o mesmo dentro de pouco tempo podemos ter surpresas desagradáveis. Os fundos setoriais são um excelente modelo de financiamento para a pesquisa, possibilitando a interação universidade-empresa. Se o governo federal investir esses recursos de acordo com as finalidades para as quais foram criados, com certeza teremos surpresas agradáveis nos próximos anos, com novas quebras de recordes de safras.

CIB – Quais projetos da sua equipe na Esalq podem ser ampliados com a parceria público-privada? E que tipo de pesquisa está na “gaveta” da Esalq, em seu departamento, esperando condições financeiras para execução?
Labate – A Esalq é uma instituição que possui tradição em parcerias com o setor privado. Na área de biotecnologia, estamos buscando a formação de um polo de biotecnologia que estimule ainda mais essas parcerias. Na verdade não há projetos na gaveta, o que temos são competências em várias áreas de pesquisa que com certeza podem atender às necessidades do setor privado. É preciso que as partes se encontrem e descubram suas potencialidades. Com certeza, se houver recursos financeiros disponíveis e uma decisão clara dos governos, federais e estaduais para que o setor privado se aproxime da universidade, isso realmente trará benefícios a ambas as partes, e principalmente à sociedade. A Esalq está pronta para o desafio.