A demanda por insulina deverá triplicar até 2012, de 5 ton/ano para 16 ton/ano. Portanto, é preciso urgentemente ampliar a capacidade de produção a custos mais acessíveis. A solução, na análise do professor canadense Maurice Moloney, especialista em biofármacos e fundador da SemBiosys Genetics – empresa canadense de biotecnologia –, é desenvolver plantas geneticamente modificadas capazes de produzir a droga básica no tratamento do diabetes.

Ao adotar a biotecnologia no desenvolvimento de açafrão transgênico, Moloney diz ser possível reduzir em pelo menos 40% custos de produção de insulina. Ele conta outros detalhes de seu trabalho nesta entrevista ao CIB:

CIB – Como as plantas geneticamente modificadas ajudam a melhorar a produção de insulina?

Maurice Moloney – Plantas são essencialmente “fábricas solares” que absorvem dióxido de carbono e água para fazer uma vasta gama de diferentes moléculas. O seqüenciamento do genoma humano, animal e de plantas mostrou que o DNA animal e vegetal é o mesmo e os códigos genéticos, idênticos. Isso significa que podemos pegar a seqüência de um gene humano e colocá-lo na planta, de modo que a planta seja “reprogramada” para produzir determinada proteína, como a insulina.

O uso de plantas na produção de moléculas complexas – como a insulina – não representa apenas um benefício ambiental (os vegetais absorvem gases que provocam efeito estufa na atmosfera), mas também há ganhos econômicos porque a técnica garante fabricação em larga escala a custos mais baixos. A maioria das plantas já é cultivada para se obter proteínas alimentares (soja, trigo, lentinha, etc.). Essas proteínas são obtidas na agricultura de maneira muito barata. Portanto, se tivermos uma planta produtora de insulina, teremos um impacto econômico no desenvolvimento de drogas caras. A produção de insulina em vegetais vai reduzir os custos de produção em pelo menos 40% – o que vai torná-la acessível a qualquer pessoa que sofre de diabetes, seja em países ricos ou em desenvolvimento.

CIB – O que a ciência já conseguiu desenvolver até o momento?

Moloney – Com técnicas genéticas próprias, obtivemos açafrão (Carthamus tinctorius) transgênico que acumula pró-insulina humana em suas sementes. A pró-insulina nas sementes não é ativa, mas podemos ativá-la depois de extraí-la. Em estudos realizados com animais, temos mostrado que esta insulina é quimicamente idêntica às disponíveis atualmente e tem função exatamente igual à insulina humana usada em pacientes diabéticos.

CIB – Quanto esta tecnologia pode ser mais econômica?

Moloney – Como disse, os custos de produção da droga podem ser de 40%. Mas o mais importante é que podemos reduzir em cerca de 70% o capital de investimento necessário no desenvolvimento de novas drogas.

CIB – A insulina transgênica é melhor?

Moloney – Não é melhor nem pior. É idêntica à convencional, mas é substancialmente mais barata e, portanto, mais acessível às pessoas que precisam de tratamento.

CIB – Quais as características da insulina produzida pela SemBioSys?

Moloney – A SemBioSys vai produzir primeiramente uma forma genérica de insulina, que deverá ser usada em injeções e também estará disponível para inalação. A planta transgênica substituirá a bactéria E. coli, geneticamente modificada e largamente utilizada na produção de insulina por processos fermentativos.

Temos estudado o mercado global de insulina e constatamos que ele será triplicado até 2012 (de 5 toneladas/ano atuais para 16 toneladas/ano). Este quadro é direcionado por diagnoses mais prematuras e pela crescente incidência de diabetes nos países de grande população. Se já possível prever a crescente demanda, precisamos ampliar rapidamente a capacidade de produção a custos mais baixos. Acreditamos que as plantas transgênicas são a melhor solução.

Vale lembrar que a pró-insulina, no campo, não é ativa e as sementes precisam ser processadas para se obter a substância. Portanto, não há risco algum em cultivar a planta em ambiente aberto.