Um grupo internacional de pesquisadores identificou um novo gene que, quando sofre mutação, pode aumentar o risco de câncer de mama em mais de 30%.

Os pesquisadores descobriram que o gene, HMMR, interage com um conhecido gene do câncer de mama, o BRCA1. Alternâncias nos dois genes causam instabilidade genética e interferem na divisão celular, o que pode ser uma rota para o desenvolvimento do câncer de mama. Para os cientistas, o estudo indica um alvo potencial para o tratamento e o diagnóstico da doença.

Os resultados do estudo foram publicados neste domingo (7/10) no site da revista Nature Genetics e em breve serão veiculados na edição impressa.

O HMMR tem mutação em cerca de 10% da população. Mutações nos dois principais genes envolvidos com a suscetibilidade ao câncer de mama, o BRCA1 e o BRCA2, ocorrem apenas em cerca de um a cada 300 indivíduos.

“Se podemos identificar variações em genes que aumentam o risco de câncer de mama e são mais comuns na população, teremos maior impacto ao usarmos esses genes como alvo para a detecção precoce ou para o tratamento”, disse Kristen Stevens, pesquisadora da área de epidemiologia da Escola de Saúde Pública da Universidade de Michigan, uma das autoras do artigo.

O estudo foi uma colaboração internacional entre pesquisadores da Espanha, Israel e de diversos centros nos Estados Unidos, incluindo o Centro do Câncer da Universidade de Michigan.

Mulheres Judias

Os cientistas iniciaram a pesquisa desenvolvendo uma ferramenta computadorizada de modelagem de rede que permite a análise de diferentes tipos de fontes de dados científicos para identificar genes que têm impacto no desenvolvimento de câncer.

Os pesquisadores começaram com quatro genes que já tinham um papel conhecido no câncer de mama: BRCA1, BRCA2, ATM e CHEK2. Com isso, foi possível observar como esses genes interagem com outros no corpo. A partir desse modelo, constataram que o HMMR tinha um papel-chave no câncer de mama.

Os autores então mostraram que as alternâncias entre o BRCA1 e o HMMR podem levar à instabilidade genética e interferir na divisão celular. “Essa descoberta nos fez pensar se o HMMR poderia também ser um gene de suscetibilidade ao câncer de mama”, disse outro autor, Stephen Gruber, professor da Escola de Saúde Pública da Universidade de Michigan e diretor do programa Genética do Câncer, da mesma universidade.

Para saber se a variação no HMMR aumenta o risco do câncer de mama, os pesquisadores compararam os genes de 923 mulheres judias israelenses com e sem câncer de mama, num estudo coordenado por Gadi Rennert, diretor do Centro Nacional de Controle do Câncer de Haifa, em Israel. A população de origem judaica ashkenazi de Israel tem um risco mais alto de desenvolver câncer de mama que outras etnias.

Esse componente do estudo mostrou que mulheres com uma variação no gene HMMR tinham um risco mais alto de desenvolver a doença, mesmo depois de considerar mutações nos genes BRCA1 ou BRCA2. Em particular, o risco de câncer de mama entre as mulheres com idade abaixo dos 40 anos que possuíam variação do HMMR foi equivalente a 2,7 vezes o risco em mulheres sem essa variação.

Os pesquisadores em seguida verificaram o achado num segundo grupo de mulheres judias ashkenazi em Nova York, nos Estados Unidos, que tinham um histórico familiar de câncer de mama, mas não tinham mutações identificadas nos genes BRCA1 ou BRCA2. Foi testado também um terceiro grupo com mulheres judias sem câncer de mama em Nova York. No total, 2.475 mulheres com câncer e 1.918 saudáveis foram estudadas em Haifa e Nova York.

No total, o risco de câncer de mama foi 23% mais alto em mulheres que tinham uma cópia da variante genética e 46% mais alto em mulheres que herdaram duas cópias.

“Identificar genes envolvidos com o câncer na população em geral é importante, porque nem todas as causas do câncer de mama foram encontradas. Com descobertas como essa, algum dia seremos capazes de fazer estimativas mais precisas sobre o risco de câncer de uma pessoa com base em seus genes”, disse outra autora, a pesquisadora Laura Rozek, da Escola de Medicina da Universidade agencia de Michigan.

Fonte: Agência FAPESP, 8 de outubro de 2007