Em entrevista exclusiva ao CIB, o secretário-executivo do Grupo Consultivo sobre Biotecnologia para América Latina e Caribe, Eduardo Trigo, acredita que a biotecnologia traz muitos benefícios para o produtor, não só porque permite mais opções de cultivo e facilita as práticas de plantio direto, mas também porque propicia uma importante redução de custos na produção. Além disso, Trigo acredita que o mercado brasileiro perde muito com a demora nas definições da legislação.

CIBNa Argentina, cerca de 95% da soja plantada é GM. Trata-se do maior percentual de uma cultura GM em um único país. Há explicação para essa maciça aceitação do uso da biotecnologia?

Eduardo Trigo – A explicação da alta percentagem está em vários fatores, todos interligados. O primeiro é que a soja GM tolerante a herbicidas possibilita uma importante redução nos custos de produção da lavoura (entre US$20 e US$25 por hectare). O segundo aspecto é a sinergia entre as variedades GM e a aplicação de sistemas de plantio direto. Não é o caso apenas das novas variedades facilitarem o emprego desses sistemas de produção. Além disso, a combinação das duas tecnologias também tem permitido o plantio de soja como segundo cultivo (soja de segunda) em muitas áreas onde antes esse tipo de atividade não era possível, permitindo, assim, uma expansão da área disponível para a agricultura. Todos estes fatores têm criado um efeito sinérgico único, e que, em última instância, explica a rápida e alta taxa de uso das variedades transgênicas.

CIBÉ possível fazer uma comparação econômica entre o uso da soja convencional e da soja transgênica (em dólar)?

Eduardo Trigo – Para o agricultor, o impacto econômico é de dois tipos. Um é o mencionado acima, da redução dos custos de produção. O outro é que, como também se indicou, esse tipo de tecnologia possibilita um melhor aproveitamento da terra ao permitir a dupla colheita (principalmente trigo/soja), especialmente seguido da ampliação da disponibilidade de variedades de soja de ciclo corto.

CIBO valor da soja transgênica no mercado internacional é menor do que o da soja convencional?

Eduardo Trigo – Até esta data não ocorreu uma segmentação importante nos mercados internacionais. CIB – A Argentina teve algum problema no que diz respeito às exportações dos produtos GM, especialmente para a Europa? Eduardo Trigo – Particularmente com a soja tolerante a herbicidas não ocorreram maiores dificuldades. Em grande parte, isto é devido a esse produto estar aprovado na União Européia e, portanto, não significou nenhuma alteração nas condições de comercialização.

CIB Além da soja, quais outros produtos GM estão aprovados no seu país e qual a expectativa do mercado para esses produtos? É tão grande como a da soja?

Eduardo Trigo – Até essa data, além da soja foi aprovado o milho e algodão Bt. Em nenhum dos dois as taxas de adoção são da mesma magnitude que as da soja, alcançando ao redor de 20% da área no caso do milho e de 7 a 8% no do algodão. Nesse sentido, é importante destacar que estas tecnologias funcionam de maneira bastante diferente, já que seus benefícios potenciais são aleatórios e dependentes dos níveis de infestação que ocorrerem em um determinado ano. Enquanto as ervas daninhas estão presentes em todos os anos e locais, as pragas, seu nível e importância variam de ano para ano e, mais importante, são difíceis de serem previstos no início da temporada, quando se toma a decisão de investir nas variedades Bt, que normalmente são mais caras. Na prática, estas tecnologias funcionam como estratégias de seguro e seria de esperar que o comportamento dos agricultores em relação a sua adoção seja diferente das empregadas no controle de ervas daninhas.

CIBQue conselhos o senhor daria aos produtores de soja brasileiros, tomando-se por base a experiência do seu país e a sua pessoal, como estudioso dos aspectos econômicos que envolvem o assunto?

Eduardo Trigo – Seria muita pretensão dar conselhos, mas é evidente que os produtores de soja do Brasil foram prejudicados pela ausência destas tecnologias, já que não puderam aproveitar os benefícios econômicos que elas têm dado aos agricultores de outros países produtores de soja, como Estados Unidos e Argentina. Um maior apoio ao processo de aprovação dos GMs seria, sem dúvida, altamente favorável para os agricultores.

CIBNa prática, quais são os principais benefícios econômicos do uso da biotecnologia no campo?

Eduardo Trigo – Além da já mencionada possibilidade de reduzir os custos de produção, devem ser mostrados o aumento das opções de cultivo e o fato de facilitar as práticas de plantio direto, que são comprovadamente eficazes para fazer uma agricultura mais sustentável.

CIBOs produtores de sementes do Brasil têm receio de perder espaço com a legalização dos transgênicos. Qual foi a experiência argentina nesse aspecto?

Eduardo Trigo – As tecnologias de OGMs, no caso da soja tolerante a herbicidas, estão disponíveis para todas as empresas através de acordos de licenciamento. Sem dúvida, é importante reconhecer que este pode não ser o caso no futuro com outras tecnologias e, portanto, deve ser analisado como assegurar e manter as condições de competição no mercado de sementes, concomitantemente com a análise das políticas a serem seguidas em outros assuntos, como pesquisa, promoção e biossegurança.

CIB No seu entender, por que no Brasil temos tanta oposição aos transgênicos, o que, aparentemente, não ocorreu na Argentina?

Eduardo Trigo – Fazer comparações é difícil, por vários motivos. Um é que para fazê-las seria necessário ter um conhecimento sobre a realidade e situação no Brasil, muito mais completa do que a que tenho neste momento. Um segundo aspecto está relacionado às características da biotecnologia em geral e a engenharia genética em particular. Os novos enfoques não somente mudam as possibilidades e a forma de fazer tecnologia – e com ela surgem novas formas de gerar, distribuir e apropriar valor econômico –, mas também criam novos dilemas éticos e preocupações legítimas sobre os possíveis impactos no meio ambiente e na saúde humana. Tudo isto tem feito com que a biotecnologia seja uma das controvérsias do nosso tempo (o que não nos deve surpreender, já que a controvérsia tem existido sempre que transformações tecnológicas de importância são apresentadas), e estas só se resolvem através da aparição de um novo marco institucional que estabeleça as regras de jogo requeridas para gerenciar o cenário científico tecnológico emergente, de maneira efetiva e segura. Este é um processo em estado de desenvolvimento ainda incipiente, no qual ainda convivem estruturas e esquemas conceituais do “velho” e do “novo”. Conseqüentemente, é de se esperar que apareçam diferentes situações entre distintos países, mesmo em países tão próximos como são Brasil e a Argentina, na medida em que os aspectos envolvidos em cada caso, incluindo as tradições institucionais e os marcos legais, são diferentes. O que é importante ressaltar é que, além das diferenças que podem existir, também há coincidências importantes como as questões críticas. Além dos princípios relativos aos processos regulatórios, há em ambos a necessidade de que as decisões estejam absolutamente baseadas em informação científica e que seja feita uma avaliação caso a caso dos eventuais riscos para a saúde humana e o meio ambiente.