Se você foi passou pelos anos 1990, é provável que se lembre dos Mamonas Assassinas, grupo de rock cômico de grande sucesso nessa época. A inspiração do quinteto para o nome da banda pode não ter vindo das características da planta, mas poderia. Uma das proteínas presentes na semente da mamona, a ricina, é uma substância muito tóxica. Por isso, mesmo sendo potencialmente interessante para a alimentação animal, ela não é utilizada para esse fim. Cientistas da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, entretanto, desenvolveram uma versão da planta sem esse composto tóxico. Por meio do silenciamento de genes do vegetal, foi possível criar uma mamona geneticamente modificada sem ricina.


A Ricina

Essa proteína pode ser considerada uma parente letal do óleo de rícino, velho conhecido de quem sofre de prisão de ventre. De acordo com o Centro para a Prevenção e Controle de Doenças dos EUA, ela impede as células humanas de produzirem as proteínas necessárias para sobreviverem. A inalação da ricina pode levar a uma parada respiratória; sua ingestão, à falência de órgãos como fígado e rins. Nos dois casos, há risco de morte. A proteína também pode causar intoxicação durante o processo de obtenção do óleo, produto valorizado na indústria por sua alta qualidade e empregado em cosméticos, tintas, lubrificantes e vários outros produtos.


Silenciamento de genes

Pesquisador da Embrapa Francisco Aragão

A pesquisa, ainda em fase inicial, foi conduzida pela equipe do pesquisador da Embrapa Francisco Aragão. Apesar do estágio preliminar, já foram geradas mamoneiras sem a presença de ricina por meio do silenciamento de genes, técnica que permite “desligar” trechos específicos do DNA.

A mamona geneticamente modificada já passou por alguns testes. Quando cobaias foram expostas a doses de ricina até 230 vezes maiores do que a letal, todas sobreviveram e não foi relatado nenhum efeito negativo de longo prazo. De acordo com Aragão, essa tecnologia poderá ter grandes impactos econômicos na cadeia produtiva da mamona e da produção animal.

Para a diretora executiva do CIB, Adriana Brondani, a conquista da Embrapa é um exemplo de que nem todo organismo geneticamente modificado é um transgênico. “Essa mamona, por exemplo, não recebeu gene de nenhum outro organismo, apenas teve uma parte de seu DNA editada; essa é uma tendência da biotecnologia que já está revolucionando diversas áreas”, afirma a doutora em biologia.


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O potencial da mamona geneticamente modificada

Mamona Geneticamente Modificada

Crédito: Saulo Coelho

O teor de óleo na semente de mamona varia de 40% a 43%. Após a extração do óleo, a torta resultante é utilizada como fertilizante orgânico, com baixo valor no mercado. A torta de mamona sem ricina poderia ser utilizada na formulação de rações animais, o que elevaria seu valor.

A produção nacional estimada de bagas de mamona para a safra de 2017/2018 é de 16,2 mil toneladas. Considerando que a torta representa cerca de 60% desse montante, haveria quase 10 mil toneladas desse subproduto para o aproveitamento na alimentação animal. Além do Brasil, a tecnologia teria potencial para ser empregada em outros países produtores de mamona, com destaque para Estados Unidos, Índia e China.

Mamona geneticamente modificada: da bancada ao mercado

Para que a mamona sem ricina chegue ao mercado, há diversas etapas a serem percorridas. O próximo passo deverá ser a associação da Embrapa com uma empresa privada para incorporar a característica genética em cultivares de interesse comercial. Após essa fase, a ser desenvolvida em laboratórios e casas-de-vegetação, será iniciada a etapa de experimentos em campo. Em seguida, será necessário preparar o processo para aprovação pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio).

 

Fonte: Embrapa, 23 de julho de 2018