A análise da seqüência do genoma da uva Pinot Noir (pinha negra, em francês), publicada hoje na revista Nature, pode revolucionar a apreciação de vinhos no mundo. O estudo identificou genes da videira Vinis vitifera (que produz esse tipo de uva) responsáveis pela produção de substâncias que interferem diretamente no aroma e sabor do vinho fabricado. O mapeamento genético pode permitir a escolha das características do vinho antes mesmo de se cultivar a uva.

Os cientistas do Consórcio Franco-italiano para a Caracterização do Genoma da Videira decidiram estudar essas árvores por causa do importante papel cultural do vinho e perceberam sua variabilidade genética limitada. “Nós encontramos 30.434 genes, menos do que o observado em muitos outros genomas de planta já seqüenciados, o que indica que a estrutura genética da videira é bem próxima à de seus ancestrais”, conta à CH On-line um dos membros do projeto, Patrick Wincker, da Universidade de Evry, na França.

A escolha da uva Pinot Noir também não foi ao acaso. Cultivado na região de Borgonha, na França, esse tipo de uva dá origem a um vinho muito valorizado pela sua qualidade e contém duas vezes mais enzimas que contribuem para a qualidade do óleo extraído da fruta e do aroma do vinho produzido. Dois principais constituintes dos vinhos, o tanino e o terpeno, são encontrados em maior quantidade nessa espécie, uma vez que os genes produtores dessas substâncias têm sua atividade intensificada. O tanino é responsável pela adstringência do vinho, adquirida de acordo com o tempo de fermentação da bebida, enquanto o terpeno é um hidrocarboneto natural precursor de vitaminas como A, K, e E.

A equipe também encontrou na Pinot Noir os genes responsáveis pela presença de grandes quantidades de resveratrol, substância química conhecida por fazer bem para a saúde. O resveratrol pode ajudar a diminuir os níveis do ‘mau’ colesterol ou LDL e aumentar os níveis do ‘bom’ colesterol ou HDL. Por isso, o vinho tinto, quando ingerido moderadamente, é conhecido por impedir a obstrução dos vasos sangüíneos e, conseqüentemente, reduzir o risco de doenças cardiovasculares, como o enfarte.

A identificação dos genes que produzem essas substâncias pode orientar a produção vinícola para as necessidades e preferências do mercado consumidor. Para os pesquisadores, a descoberta pode mudar a maneira de se produzir a bebida: “O cultivo da uva é altamente suscetível a uma diversidade grande de agentes patogênicos. O mapeamento pode ser usado, por exemplo, para a introdução em alguns genes de traços de resistência a certas doenças. Conseqüentemente, isso contribuirá para a redução de tratamentos à base de fungicidas e pesticidas”, diz a pesquisadora Anne-Françoise Adam-Blondon, também da Universidade de Evry, exclusivamente para a CH On-line . E completa: “A descoberta proporcionará condições sustentáveis para a prática da vinicultura.”

Fonte: Ciência Hoje On-line – 27 de agosto de 2007