Para Francys Vilella, PhD em Entomologia pela Universidade Federal de Viçosa/Nebraska (EUA) e que no Brasil é pesquisadora associada da UFV (MG), a demora na aprovação das experiências com transgênicos no país não é compreensível. “Entendo a necessidade de uma legislação sobre o assunto, mas não se justifica a morosidade desse processo”, diz Francys, que desenvolve trabalhos na área de genética molecular e resistência de insetos. Segundo a pesquisadora, essa lentidão jurídica deixa o Brasil numa posição de atraso no que diz respeito aos estudos sobre Organismos Geneticamente Modificados. Em sua entrevista ao CIB, a cientista faz também um resumo dos principais pontos discutidos no 19º Congresso Brasileiro de Entomologia, realizado em Manaus no mês de junho. Confira a íntegra da entrevista.

CIBDe 16 a 21 de junho foi realizado o 19º Congresso Brasileiro de Entomologia, cujo tema foi: A Entomologia no Século 21 e o Manejo da Biodiversidade. Em linhas gerais, como foi o congresso? Como as plantas transgênicas foram discutidas no contexto do manejo da biodiversidade?

FRANCYS – O congresso foi muito interessante e se percebeu que há uma tendência cada vez maior pela preocupação ambiental. Para a liberação dos transgênicos se discutiu muito e há uma preocupação constante do impacto dessa alternativa de controle na biodiversidade brasileira. Sem dúvida há a necessidade de estudos das plantas transgênicas e suas interações ao nosso ambiente tropical, mas não exclusivos sobre a relação entre a planta transgênica e o inseto alvo de controle, como também da sua inserção na cadeia alimentar.

CIBComo estão os estudos dos transgênicos no Brasil para o controle de pragas? Quais são as proteínas inseticidas mais comuns para o controle dos principais insetos-praga da agricultura brasileira?

FRANCYS – Sei que existem muitos esforços no sentido do avanço das pesquisas com transgênicos no Brasil. Entretanto, como não há autorização para se plantar transgênico comercialmente (larga escala) e pela necessidade do RET (Registro Temporário), as pesquisas ficam ainda mais prejudicadas. Entendo que exista a necessidade da existência de uma legislação e sou favorável a isso, mas não compreendo o real motivo da morosidade desse processo. Isso só facilita o contrabando, como é o caso da soja transgênica, o que deixa o Brasil numa posição cada vez mais atrasado em termos de conhecimento do impacto dos OGMs no meio-ambiente. Além de empresas privadas, sei que a Embrapa tem realizado estudos mais aprofundados, com uma visão holística do meio-ambiente. Nos Estados Unidos, por exemplo, onde o plantio é liberado, o conhecimento sobre a introdução da cultura transgênica, seu nível de produção, controle de insetos-alvos, e impacto no meio-ambiente, é muito maior. Sabe-se que as toxinas Cry1A(b) delta-endotoxin (B. thuringiensis subsp. kurstaki (Btk) HD-1), Cry1A(c) delta-endotoxin (Btk), cry1F delta-endotoxin (B. thuringiensis var. aizawai), Cry3A delta-endotoxin (B. thuringiensis subsp. Tenebrionis), Cry9c delta- endotoxin (B. thuringiensis subsp. tolworthi) são as melhores candidatas, hoje, no controle de insetos.

CIBQue riscos as plantas transgênicas podem apresentar? Todos os OGMs apresentam o mesmo grau de risco?

FRANCYS – Não há nenhuma tecnologia que não tenha algum risco associado. Assim, a utilização dos OGMs também possui seu risco. Segundo The Royal Society, US National Research Council e Organisation for Economic Co-operation and Development o risco associado às plantas transgênicas é o mesmo associado às culturas melhoradas convencionalmente, assim as formas de manejo também valem para os OGMs. Ou seja, deve-se ter em mente quando se fala em risco, do possível impacto das culturas transgênicas em insetos não-alvo e em outros organismos; possibilidade de transgênicos indesejáveis; contaminação do ambiente com produtos secundários; riscos ambientais do fluxo genético entre e dentro de espécies vegetais transgênicas resistentes a insetos e o seu manejo. Nem todos os OGMs apresentam o mesmo risco, pois deve-se levar em conta se há parentes silvestres, microrganismos associados e é muito importante o estabelecimento da metodologia correta para avaliar o risco de transferência de genes entre espécies.

CIBA senhora, em sua palestra, abordou o caso do milho. O que, em linhas gerais, há disponível para o controle dos principais insetos-praga dessa cultura.

FRANCYS – Em minha palestra apresentei o que há disponível para controle dos principais insetos-praga do milho, inclusive dados nossos, quando trabalhei com o Dr. José Magid Waquil (Embrapa Milho e Sorgo) na University of Nebraska – Lincoln, nos Estados Unidos. Ou seja, uma determinada proteína inseticida pode controlar de maneira eficiente uma determinada praga do milho e não ter efeito sobre uma outra praga da mesma cultura. Portanto, quando se fala em transgênicos é importante não generalizar, pois cada produto tem suas características próprias.

CIBNo Brasil as plantas transgênicas ainda não foram liberadas, assim os parâmetros usados como referências são os de regiões temperadas, como os Estados Unidos, por exemplo. Como ficam os estudos de controle de insetos de clima tropical como o nosso?

FRANCYS – O Brasil é detentor de uma biodiversidade fantástica e a preocupação em preservá-la não deve ser restrita aos ambientalistas, mas a toda a sociedade. A comunidade entomológica tem um papel fundamental nessa preservação, uma vez que 40% dos insetos conhecidos fazem parte da nossa biodiversidade. Assim, não podemos simplesmente adaptar o que é conhecido para as regiões temperadas. Devemos ter a preocupação de estudar se os mesmos produtos transgênicos, que funcionam para controlar as espécies lá fora, atuam com a mesma eficiência para controlar as nossas espécies-praga, evitando assim a precocidade de uma possível resistência, e principalmente o impacto em organismos não alvo. Inclusive, no 19º Congresso Brasileiro de Entomologia foram apresentados diversos trabalhos que avaliaram a eficiência de plantas transgênicas no controle de insetos que atacam diferentes cultivos, bem como aqueles que não são pragas, incluindo seus inimigos naturais. Desta forma, é importante a liberação dos estudos que poderiam ser conduzidos em áreas estratégicas para a obtenção de dados importantes nas tomadas de decisão.

CIBE a questão da sustentabilidade dessa alternativa de controle?

FRANCYS – Com base nos resultados já obtidos em países onde culturas transgênicas vêm sendo utilizadas, há estimativas de economia de 1 bilhão de dólares com o uso dessa tecnologia na agricultura. A redução na aplicação de inseticidas permitiria incluir a agricultura numa política de sustentabilidade e menor agressão ao ambiente. A implicação direta seria o restabelecimento do equilíbrio do agroecossistema, facilitando a ação dos inimigos naturais no controle das pragas. Entretanto, para que essa seja uma alternativa sustentável, é necessário atentar para o impacto dessa alternativa na sociedade (como a dependência de uma tecnologia de domínio restrito). Desta forma é importante destacar que as plantas transgênicas devem ser encaradas como mais uma tática a ser empregada no contexto do Manejo Integrado de Pragas (MIP). Ou seja, uma estratégia que pode ser associada a outras como controle biológico, cultural, físico, químico, utilizando todos os fatores de controle ambiental para manter as populações de pragas dentro de níveis aceitáveis numa região.