A dengue, que pode ser fatal e se tornou um dos maiores problemas de saúde pública no Brasil, infecta 50 milhões de pessoas no mundo a cada ano, estima a Organização Mundial de Saúde, e 2,5 bilhões estão sob risco.

Com tal preocupação em mente, a empresa Oxitec, que foi desmembrada da Universidade de Oxford em 2002 e ainda tem participação acionária da instituição, desenvolveu um exército de mosquitos geneticamente modificados que têm a missão de matar sua espécie. Em decorrência de uma modificação genética, todos os mosquitos machos nascem estéreis. Quando cruzam, sua prole herda o defeito e morre ainda em estágio larval. Se um número suficiente é solto, eles podem superar os machos normais na batalha por fêmeas e acabar dizimando a população. Um plano, ainda em estágio inicial, foi traçado para lançar os insetos a 10.000 quilômetros de distância, na Malásia. Autoridades andam desesperadas para controlar uma epidemia de dengue que, como a febre amarela, é transmitida pelo mosquito conhecido como Aedes aegypti.

Naquela que deve ser a primeira inserção de insetos geneticamente programados para matar outros insetos, cientistas podem soltar milhões deles para dizimar a população de Aedes aegypti e, esperam, acabar com as doenças que eles transmitem.

Como forma de controle de infestações, insetos machos já foram soltos muitas vezes antes. Os Estados Unidos usaram o método em 1966 para se livrar de uma mosca que come carne conhecida como mosca-bicheira. Em Zanzibar, machos estéreis eliminaram a mosca tsé-tsé nos anos 90. Em ambos os casos, os insetos foram esterilizados à moda antiga, com radiação. A técnica nunca funcionou bem em mosquitos ou pernilongos, embora uma recente experiência no Sudão tenha mostrado resultados promissores.

Na verdade, cientistas agora estão nos primeiros passos para construir uma fábrica de irradiação de mosquitos para criar 1 milhão de machos estéreis por dia. Bulir com a formação genética de um inseto é uma idéia mais radical. Pesquisadores na Índia e França criaram bichos-da-seda geneticamente modificados para defender contra um vírus que costuma matá-los. Há esforços similares para fazer mosquitos transgênicos que não transmitam malária. Nos EUA, cientistas irradiaram e soltaram milhões de lagartas-rosadas para controlar populações da praga do algodão.

No ano passado, o Departamento de Agricultura do país deu um passo além. Das 2,4 milhões de criaturas soltas no sul do Arizona, metade tinha uma alteração genética: uma peça extra de DNA que lhes dava marcas vermelhas fluorescentes pelo corpo, o que as tornava mais fáceis de identificar sob o microscópio. Criadas pela britânica Oxitec, as lagartas transgênicas “se comportam como as linhagens não transformadas”, diz Greg Simmons, um entomologista do Departamento de Agricultura.

Fonte: Valor Econômico – 12 de junho de 2008