CIB – Qual o papel que o Brasil está desempenhando na produção de biocombustíveis no cenário internacional? Qual o potencial brasileiro?

Roberto Rodrigues – Sem dúvida, o potencial é enorme. O Brasil tem hoje 62 milhões de hectares agricultados com todos os produtos. Destes, mais de 6 milhões são ocupados com cana – 3,3 mi para açúcar e 3,2 mi para etanol. Portanto, apenas 5% da área agrícola vai para a produção de etanol, nas quais produzem 20 bilhões de litros/ano.

Para se ter uma idéia do potencial de crescimento, podemos fazer um cálculo simples. São 200 milhões de hectares ocupados com pastagens, dois quais 90 milhões são aptos para agricultura (entre eles, 22 milhões aptos para a cana). Assim, estima-se que o País pode ampliar a sua área de cana para produção para etanol em até sete vezes. A pesquisa agronômica da cana-de-açúcar indica que se em 10 anos a produtividade de etanol por hectare dobrar, produziremos mais 20 bilhões na mesma área usada atualmente, chegando a um limite de 280 a 300 bilhões de litros por ano. E isso considerando apenas as terras não-irrigadas – ao contrário de países concorrentes que necessitam de irrigação e, portanto, arcam com um custo adicional para produzir.


CIB – E qual o caminho que está sendo trilhado?

Roberto Rodrigues – O Brasil tem condição para liderar mundialmente o projeto, e particularmente em um assunto que domina. Não apenas 40% do nosso combustível líquido hoje é de origem agrícola e, portanto, renovável, mas o País é dono também da tecnologia dos motores FLEX, dispositivo já instalado em 80% dos carros vendidos no Brasil. Somos modelo no setor. Porém, para que o projeto de agroenergia de fato se concretize, é necessária uma estratégia nacional, que indique prioridade e dê rumo às ações. É preciso uma estrutura no governo que articule todas as questões envolvidas, desde produção, logística, estocagem, pesquisa, relações de zoneamento agrícola e políticas externas. E, acima de tudo, investimento em pesquisa. Os norte-americanos, por exemplo, estão dedicando este ano US$ 1,6 bilhão em pesquisa em etanol de celulose, enquanto nosso orçamento é pouco maior que R$ 100 milhões. Portanto, mantido esse ritmo, daqui a dez anos ficaremos para trás. Isso não pode acontecer.


CIB – A biotecnologia pode contribuir positivamente para esse cenário? De que forma?

Roberto Rodrigues – Tenho dito que o limite para crescimento da agroenergia tem a ver com o tamanho do espaço que daremos à biotecnologia nesse processo. Desde as vantagens mais óbvias e imediatas, como variedades resistentes a pragas, até variedades com mais produtividade por hectare, menor demanda por água e nutrientes, melhor aproveitamento de outros materiais, como o bagaço e as folhas, novos mecanismos de fermentação da cana, novas cepas de fermentos. Isso sem contar os benefícios ambientais já conhecidos que as variedades transgênicas podem trazer. E digo isso não apenas em relação à cana-de-açúcar, mas também em outras culturas para reduzir os custos de produção e melhorar a qualidade do produto. O Brasil pode e deve ser gerador dessa tecnologia, e tem especialistas altamente capazes para tanto, mas é preciso haver pesado investimento público e privado em pesquisa. A rotação cana (gramínea) com leguminosas pode ganhar muito com avanços em biotecnologia.


CIB – Quais são os países diretamente competidores nesse mercado de biocombustíveis?

Roberto Rodrigues – É importante ressaltar que hoje ainda não existe um mercado para etanol, mas é fato que ele existirá. E para que isso aconteça, para que o etanol se torne commodity, o Brasil deve efetivamente criar estímulos para que outros países também produzam cana, concorrência que torna menor o nosso custo médio de produção e que incentiva o desenvolvimento para políticas de produção e comércio.

Hoje, os Estados Unidos e o Brasil são responsáveis por quase 75% da produção mundial de etanol. Não à toa ambos os países integram, juntamente com o Banco Interamericano de Desenvolvimento, a Comissão Interamericana do Etanol. O principal objetivo da comissão é estabelecer uma relação ampla para que os dois países se tornem promotores da produção de etanol no mundo – principalmente na América Latina, com vistas a grandes mercados consumidores, como a Ásia e a Europa. O Japão é um grande importador potencial; Tailândia, Filipinas e Malásia já produzem cana; a África subsaariana será grande produtor de etanol a partir da celulose.

A agroenergia deve mudar o paradigma da agricultura mundial. Pense que, para ser um grande produtor, é preciso uma conjunção de fatores: terra disponível, sol, água, tecnologia e gente capaz + capital. Países tropicais têm, em geral, todos os cinco primeiros elementos, mas não têm capital. Ao contrário disso, em geral, países acima dos trópicos detêm o potencial de investimento, mas não dispõem de condições geográficas e climáticas adequadas. Isto determinará um vigoroso fluxo de capitais Norte/Sul, dada a demanda energética no hemisfério norte.


CIB – Uma das maiores críticas que se faz ao aumento da plantação de cana para a produção de etanol é a possibilidade de haver menos espaço para a produção de alimentos. Essa relação é verdadeira?

Roberto Rodrigues – Não, não é. Trata-se de um falso dilema e não existe argumentação numérica, técnica ou científica que justifique essa tese contra o etanol. As pessoas fazem contas sobre o futuro olhando para o passado. Avaliam que vai faltar comida com base em níveis de produtividade estáticos, como se a inovação tecnológica não existisse.

Para se ter uma idéia, só no Brasil, nos últimos 15 anos, a área plantada com grãos cresceu 21%, enquanto a produção aumentou 119%. No caso das carnes, o número é ainda mais impressionante: em 12 anos, a produção de carne suína cresceu 113% e a de frango 170%. Isto demonstra a enorme capacidade de aumentar a oferta de alimentos no futuro, inclusive com o uso de novas tecnologias, como a transgenia.

Por outro lado, a produtividade do etanol por hectare também dobrará em função de avanços tecnológicos. E finalmente, haverá produção de alimentos nas áreas de renovação da cana onde antes só havia pastagens. Portanto, não há e nem haverá no longo prazo o problema da concorrência entre alimentos e biocombustíveis.


CIB – E sobre o eventual desmatamento da floresta Amazônica para ampliar a área de produção de cana?

Roberto Rodrigues – Isso é o que chamo de absurdo agronômico! Plantar cana naquela região é uma bobagem, porque ela é uma gramínea que precisa de uma área com período seco para concentrar o açúcar e produzir etanol ou sacarose. Lá é muito úmido, em boa parte não é possível plantar porque não haverá seca nem frio. Também afirmam alguns que os pastos vão ser deslocados para a Amazônia. Não necessariamente, pois o processo de avanço tecnológico na pecuária de corte não demanda que novas áreas florestais sejam desmatadas. Ou seja, ambas as argumentações não se sustentam tecnicamente.