Em entrevista ao site do CIB, o professor Paulo Arruda, da cadeira de Genética da Unicamp – doutor e pós-doutor em bioquímica – afirma que na história da ciência nunca se estudou tanto um assunto como os Organismos Geneticamente Modificados (OGMs). “Diversos países vêm produzindo e comercializando transgênicos há anos, sem conseqüências maléficas”, afirma o cientista.

Segundo o pesquisador, esses produtos já deveriam estar nas prateleiras dos supermercados brasileiros há muito tempo, não fosse uma onda contra OGMs, sem base científica. Para ele, o trabalho desenvolvido no Projeto Genoma brasileiro, do qual participou, será fundamental para a melhoria da nossa agricultura. “Tudo está codificado no genoma. É por esse motivo que o seqüenciamento genômico vai funcionar como uma arma decisiva na melhoria da qualidade nutricional dos alimentos”, afirma. Leia abaixo a íntegra da entrevista:

CIB O senhor faz parte do Projeto Genoma. Considerando as possibilidades desse trabalho e os avanços da biotecnologia agrícola, como o seqüenciamento genômico de seres vivos poderá ser utilizado na agricultura?

ARRUDA – Todo organismo vivo necessita de uma bateria de milhares de moléculas para atuar na defesa do ataque de patógenos ou mesmo para sobreviver as fortes mudanças climáticas ao longo da vida. Essas moléculas têm na origem um código genético. Por isso, se nós conhecermos a totalidade do código genético de um ser vivo, seja ele animal ou vegetal, temos potencialmente a condição de descobrir todo o seu mecanismo de defesa. Trata-se de um enorme trabalho de decodificação de todos os genes que estão por trás dos organismos vivos. E quando você seqüência o genoma de um patógeno, que é o caso da Xylella, adquire condições de conhecer as armas do atacante e o conhecimento sobre suas defesas. Assim, é possível produzir plantas que sejam mais resistentes e produtivas.

CIBObviamente também é possível produzir plantas com melhor qualidade nutricional?

ARRUDA – Sim, pelo simples fato de que esse tipo de informação está registrado no código genético. Um outro exemplo interessante é o seguinte: o homem não é capaz de produzir uma série de aminoácidos, que são os componentes das proteínas ou os tijolos das células. O único jeito de suprir essa deficiência é ingerir alimentos ricos nesses aminoácidos essenciais, que estão, por exemplo, nos ovos e nas carnes. Tudo está codificado no genoma. É por esse motivo que o seqüenciamento genômico é também se torna fundamental para conseguirmos melhorar a qualidade nutricional dos alimentos.

CIBOutro exemplo não são as leguminosas, deficientes em metionina? Com o seqüenciamento genético será possível corrigir deficiências como essas?

ARRUDA – Sem dúvida. Além disso, é possível citar os cereais que são deficientes em lisina, aminoácido fundamental para as funções cerebrais. Por isso, quem se alimenta apenas de cereais acaba não se desenvolvendo intelectualmente. Agora, sabendo disso, em alguns países cereais ricos em lisina entrarão no mercado por meio de plantas geneticamente modificadas nos próximos três ou quatro anos. Essa é a nova onda.

CIBMas essa nova onda não está ainda muito na teoria e pouco na prática?

ARRUDA – Creio que não. Acontece que esses produtos já deveriam estar nas prateleiras dos supermercados, se não fosse essa grande onda contra OGMs. Os estudos de genes tolerantes a herbicidas foram rápidos porque já existia muita coisa sobre esse assunto. Já os produtos melhorados geneticamente precisaram de muito mais tempo de pesquisa, mas já estão prestes a serem comercializados, não no Brasil, é claro, enquanto forem proibidos.

CIB E isso certamente terá também um caráter social relevante…

ARRUDA – Creio que sim. Quando as pessoas perceberem que um arroz geneticamente modificado poderá suprir uma série de carências alimentares, o fator social será levado em conta. Até porque boa parte da população mundial só consegue comprar alimentos como cereais, que são baratos. Por isso, o seqüenciamento genômico é o alicerce para o conhecimento total de questões ligadas ao crescimento, à reprodução, à defesa dos ataques de patógenos, entre outras questões fundamentais. Um outro ótimo exemplo para quem vive no campo: existem plantas que suportam geada e outras não. A pergunta que se faz é por que isso ocorre? Existe algo lá dentro que possibilita esse fato e que pode evitar perdas absurdas de plantações. A agricultura brasileira dispõe de regiões altamente avançadas em termos tecnológicos, mas suas perdas continuam muito grandes. Se é possível produzir mais, não há porque não fazer isso.

CIBOu seja, a biodiversidade se transformou numa piscina de genes onde se pode pescar diferentes informações?

ARRUDA – É exatamente isso. Quanto maior informação você tiver sobre biodiversidade, melhor. Até porque existem pequenas variações entre os genes existentes. Ou seja: se você comparar o genoma do rato com o do ser humano, 95% é igual. E qual a diferença? Está no fato de que o gene pode ser o mesmo, mas internamente apresenta algumas variações responsáveis pelas diferenças entre o homem e o rato. Aí é que se encontra a riqueza do negócio. Quando se fala em biodiversidade é sobre essa enorme variedade de informações que estamos tratando.

CIBE isso acaba sendo fundamental para diversas áreas, a exemplo da segurança alimentar e médica…

ARRUDA – Recentemente saiu na revista Nature a informação de um pesquisador que descobriu que existe uma proteína que é o gatilho de multiplicação do vírus da Aids. Com isso, existe uma chance de encontrarmos uma forma de administrar essa porta de entrada da doença. E tudo isso está no genoma.

CIBPor que o senhor diz que o estudo de plantas está defasado no Brasil?

ARRUDA – Trata-se de uma questão de base científica. É preciso ter pesquisadores trabalhando mais e mais estrutura para que seja formada uma massa crítica. Essa defasagem está diretamente ligada à questão de investimentos em pesquisas, que para a área de plantas ainda são pequenos. E não é só nesse setor. Na área médica, não temos estrutura de testes, com exceção em casos como o Butantã. Na área de plantas temos uma imensa área para fazer experiências, mas é preciso investir mais em formação e estruturas de laboratórios.

CIBE, por exemplo, qual a conseqüência prática do seqüenciamento do genoma da cana-de-açúcar?

ARRUDA – Foram seqüenciados os genes expressos, que são as frações produtoras de proteínas. No caso da cana, encontramos praticamente 90% desses genes. Aí aparece de tudo: enzimas responsáveis pela produção do açúcar, genes relacionados com defesa contra algumas bacterioses importantes e outros patógenos. Esse projeto foi desenvolvimento de uma parceria entre instituições acadêmicas com a Coopersucar, que é uma cooperativa de produtores de açúcar. Nosso interesse é trabalhar com eles, desenvolvendo novas variedades mais rentáveis, de forma a agregar valor. Vale lembrar que estamos falando de um business que representa para o país algo em torno de 10 bilhões de reais por ano. Outro projeto é o do seqüenciamento do eucalipto, que tem uma grande importância econômica para o Brasil. São quatro empresas envolvidas com a Fapesp nesse projeto. Ou seja, o que falta para o Brasil é explorar melhor sua biodiversidade para descobrirmos substâncias de alto valor agregado.

CIBCom tantas informações positivas, por que a comunidade científica tem dificuldade de passar pra frente essas informações, diminuindo as críticas a essas pesquisas na área da biotecnologia?

ARRUDA – Acho que a comunidade científica tem dificuldade de explicar essas experiências de uma forma simples. Até porque, são trabalhos muito complexos. Mas tenho uma certeza: nunca se estudou tanto um assunto e, portanto, acho que o uso da biotecnologia é apenas uma questão de tempo. Quando as pessoas se derem conta do tamanho do problema da produção de alimentos no mundo, verificarão que não existe outra opção. A agricultura convencional também é muito agressiva, uma vez que para que dê certo é necessário acabar com grandes áreas de florestas. Além disso, o ganho de produtividade com melhoramento convencional é da ordem de 1% a 2% ao ano. Em 20 anos, qual vai ser a população do planeta? Vai faltar muita comida nesse ritmo.

CIBE o Brasil está totalmente parado no que diz respeito com biotecnologia…

ARRUDA – Infelizmente no Brasil trabalha-se muito com achismos. Vejo muito estudante dizendo, “alguém falou isso…”, mas onde está o estudo científico? Não existe. Volto a dizer: o uso intensivo da biotecnologia é uma questão de tempo e chegaremos lá, pois se trata de uma importante alternativa para o Brasil. Vale lembrar um dado internacional muito interessante: hoje a China consome 400 milhões de toneladas de grãos por ano. O cálculo é de que entre 10 e 15 anos esse consumo passe para 600 milhões de toneladas. Isso significa que poderíamos trabalhar muito bem uma fatia de exportação para aquele país. Só que mesmo com tantas áreas livres, atualmente, o Brasil só produz 100 milhões de toneladas.

CIBE o que dizer para quem critica os OGMs em termos de segurança alimentar?

ARRUDA – Simplesmente que nunca se estudou tanto um alimento, como os OGMs e que diversos países vêm produzindo transgênicos há anos, sem conseqüências maléficas. Obviamente, como no caso de outras tecnologias, com os OGMs é necessário tomar certos cuidados, que estão sendo tomados. Uma possibilidade bem atual é não introduzir novas proteínas nas plantas e sim aumentar algumas delas que já existam nessas espécies. É o caso dos cereais com pouca lisina, nos quais a saída é simplesmente aumentar a quantidade dessa substância. Trata-se de um novo enfoque. Ou seja, a biotecnologia está se aprimorando.