O Professor Emérito da Universidade de São Paulo, Isaias Raw, que tem especialização em Ciências Biomédicas, criou há 17 anos o Centro de Biotecnologia do Instituto Butantã, em São Paulo. Hoje, é o presidente da fundação que administra a entidade. Desde 1985, sua equipe desenvolveu e implantou tecnologias modernas para a produção de soros e vacinas, reconhecidas internacionalmente. Em entrevista ao CIB, o dr. Raw falou sobre vários assuntos ligados à Biotecnologia, especialmente sobre segurança alimentar. Nesta primeira parte da entrevista – as demais serão divulgadas nas próximas semanas – o pesquisador define o que é, para ele, Biotecnologia, além de destacar a importância dessa ciência na agricultura e desmentir a existência de pesquisas científicas que comprovem perigos ligados aos alimentos transgênicos.

CIB Como o senhor define Biotecnologia?

RAW – Primeiramente, é preciso deixar claro que existe uma diferença de Biotecnologia para saúde e para nutrição. Na área da nutrição, nós perdemos a produção de semente por imaginar que trabalharíamos apenas com o processo de seleção. Chegamos a fantasiar que faríamos dezenas de transgênicos voltados para o mercado europeu, o que na minha opinião é algo totalmente irreal. Acho que existe de fato um lobby anti-soja no Brasil, que é tão importante para as nossas exportações. Não é de hoje que eu questiono de onde vem o dinheiro de certas ONGs, que não abrem o seu livro-caixa. Eu tenho uma suspeita de que essas organizações são financiadas por um lobby formado contra essas empresas que mexem com soja no Brasil. Ou seja, no que diz respeito à Biotecnologia na área de produção de alimento, a situação no Brasil é grave. É preciso mudar esse quadro.

CIBMas de certa forma a Biotecnologia na área de alimento está ligada à área de saúde, não?

RAW – Certamente alimento e saúde são assuntos que têm uma ligação íntima. Por que a população do mundo explodiu? Porque as crianças não morreram tanto quanto no passado. Na África, por exemplo, se chegarmos ao dia em que as crianças pararem de morrer de uma série de doenças como tétano, coqueluche, difteria, vão acabar morrendo de fome. Por isso, a Biotecnologia assume papel fundamental para a solução desse problema. Então, a ligação entre saúde e nutrição é muito importante e fundamental. Quando alguém morre de doença é uma coisa, mas quando a causa é a fome, a história é outra.

CIB O senhor acha que a Biotecnologia ajudou a equacionar essa diminuição da mortalidade infantil e agora será fundamental para solucionar a questão da produção de alimentos no mundo?

RAW – Certamente a Biotecnologia foi fundamental e a melhora desses índices surgiu muito antes da tecnologia de DNA recombinante, quando se trabalhava com processo de seleção. Hoje em dia, ninguém planejaria ficar 25 anos num instituto selecionando semente para a melhoria de uma determinada produção. Isso é passado.

CIBMas quem critica a Biotecnologia na agricultura diz que essa argumentação é falsa porque o problema seria basicamente de distribuição de renda. Qual a sua opinião sobre isso?

RAW – Me desculpem essas pessoas, mas essa é uma outra questão. Não podemos esperar que todos os problemas sejam sanados de uma só vez. Não adianta ter distribuição de renda e ter acesso a um supermercado sem comida. Ou seja, se você der o dinheiro aos africanos comprarem comida, hoje eles não vão encontrá-la com facilidade. Nesse sentido, um exemplo bastante atual dessa falta de estrutura de produção é o do esforço de cobrir as crianças do mundo com vacina. Este ano, a Unicef tentou comprar 90 milhões de dólares em vacina, que não passaram de 18 milhões por falta de produção em escala. É um dado chocante que pode se repetir em relação aos alimentos. O problema da nutrição existe, precisa ser equacionado e só há um caminho: o da Biotecnologia. Como isso está nas mãos de grandes empresas, com imensos volumes de dinheiro, de alguma forma deve ser resolvido.

CIBOu seja, trata-se da necessidade de uma grande mudança de um quadro mundial?

RAW – Sim. É preciso produzir mais com menos fertilizante, menos agrotóxico e menos área.

CIBE o problema da agricultura orgânica é que ela não tem produção em escala?

RAW – Não é só isso. Quando eu morava em Nova York, certa vez o Serviço de Saúde Pública recolheu nos pequenos supermercados as verduras plantadas de forma orgânica. O que eles descobriram é que tinha mais DDT (inseticida clorado) nos orgânicos do que nas demais verduras, porque é inviável trabalhar a lavoura de outra forma quando estamos falando de uma indústria e não de artesanato.

CIB Mas por que o senhor acha que existe tanta polêmica sobre biotecnologia na área da agricultura e nem tanta com na área da saúde?

RAW – No Brasil, essa discussão está relacionada praticamente à questão da soja. Existem interesses claros nessa cultura e o nosso país ameaça a produção do mundo. Isso não acontece com o milho, por exemplo. E qual seria a diferença de se trabalhar por engenharia genética ou com o milho híbrido? Ela não existe. O milho híbrido foi formado a partir da transferência de genes de diferentes plantações ao longo de muitos anos de trabalho, só que o processo atual é muito mais rápido. E por que só se discute soja?

CIBOu seja, assim como os produtos híbridos, não existe nada que comprove cientificamente qualquer tipo de perigo desses produtos?

RAW – Não existe realmente nenhum estudo científico que comprove alguns dos perigos alardeados. Até porque se fosse assim os americanos estariam morrendo aos montes. É irritante ler e ouvir a divulgação de tantas informações falsas, sem nenhuma comprovação científica.

CIB E isso pode comprometer o avanço econômico e científico de qualquer país…

RAW – Para o Brasil, isso significa vida ou morte. Se perdermos a venda de soja será a morte para nós. O nosso país já perdeu a venda do café. A quebra do café no início do século passado derrubou a economia brasileira. Se derrubarem a soja, a economia vai para o buraco.

CIBE aí é que faz a diferença, para o senhor, do próprio conceito de trabalho com Biotecnologia, não é?

RAW – Exatamente. Para mim, Biotecnologia não é publicar um artigo numa revista, nem mesmo tirar uma patente. Essas são ações inócuas. Biotecnologia é produto na prateleira. Sem isso, não existem tecnologia e produção. Estamos criando no Brasil pesquisadores e muita competência, mas não se vê tecnologia, ou seja, produção.

CIBEntão o que é preciso fazer com urgência?

RAW – É necessário mudar esse quadro nacional, com atitudes políticas que permitam os investimentos em tecnologia, com a conseqüente escala de produção. Sem isso, perderemos várias oportunidades de negócios, empregos e desenvolvimento.