Por Ivo M. Carraro

Muito se fala sobre a biotecnologia agrícola, seus benefícios para os agricultores e os consumidores. Muito se debate mas algumas dúvidas ainda persistem. No entanto, já passou da hora de o Brasil assumir uma real definição sobre o assunto, para que o agricultor brasileiro possa optar pela tecnologia que melhor lhe convier. Afinal, tanto nosso território tem espaço como nossa agricultura tem maturidade suficiente para cultivos orgânicos, convencionais e, também, para transgênicos. A sojicultura brasileira, tão importante para a balança comercial e nossa força de trabalho, deve ter acesso a essa tecnologia se quiser ser mais competitiva no mercado externo. O mesmo vale para outras culturas, como milho e algodão.
Competitividade que vem sendo ampliada e comprovada por nossa vizinha Argentina, onde a soja geneticamente modificada ocupa mais de 95% da área total cultivada com a oleaginosa. Tamanha adesão só pode ser reflexo dos benefícios que ela proporciona. Benefícios que não podem ser reduzidos ao aumento ou não da produtividade das lavouras. Eles estão além de uma simples comparação numérica, uma vez que envolve fatores nem sempre mensuráveis à primeira vista.
As grandes vantagens da soja transgênica, comprovadas pelos agricultores que optaram por seu cultivo, são a redução dos custos de produção e a facilidade de manejo. A soja tolerante ao glifosato, princípio ativo de vários herbicidas comercializados ao redor do mundo, permite enorme redução no volume usado atualmente dos mais diferentes tipos herbicidas nas lavouras para o controle de plantas daninhas, podendo ser substituídos por volumes muito menores deste herbicida ao qual apresenta tolerância.
Estudos feitos na Argentina mostram que o uso da soja transgênica diminuiu os custos gerais de produção em 22%, sendo que a maior redução se deu justamente no uso de herbicidas, atingindo 49%. Antes da introdução da soja transgênica, os sojicultores argentinos gastavam cerca de US$ 51 por hectare para manter limpa sua soja. Com o plantio das variedades transgênicas, esse custo caiu para US$ 26 por hectare.
A partir do momento em que menos aplicações de herbicidas são necessárias, o manejo da lavoura é facilitado, havendo inclusive uma grande economia de combustível, já que as máquinas são menos utilizadas nos campos para mantê-los livres das plantas daninhas.
Vários estudos investigaram o impacto da soja tolerante ao glifosato sobre a utilização de herbicidas. Um estudo universitário independente divulgado na edição de julho de 2000 da ´Feed Compounder Magazine´ (Revista dos Compostos de Rações) – Dr. R. Phipps – reportou que o uso de herbicidas e inseticidas na produção de soja e algodão transgênicos diminuiu em 20% e 80%, respectivamente. O Dr. Phipps estima que o uso de culturas originárias da biotecnologia na América do Norte reduziu o uso de agroquímicos em 4,5 milhões de litros. O Departamento de Agricultura dos EUA já declarou que a adoção de soja transgênica está associada a uma diminuição no número de tratamentos com herbicidas (Agricultural Outlook Summary, julho de 2000).
Outro aspecto a se ressaltar é a ausência de efeito residual no solo dos outros herbicidas anteriormente utilizados que afetavam as culturas subsequentes à soja como trigo ou milho, além de não se verificar na lavoura desta soja os efeitos fitotóxicos remanescentes das aplicações de um conjunto de herbicidas parcialmente seletivos, o que tem aumentado significativamente a produtividade quando comparados os dois sistemas com o uso da mesma cultivar.
Já passou da hora de o Brasil agir como nação inserida no mundo desenvolvido, tratando de seus assuntos técnicos a partir da visão racional. No debate científico, não há espaço para opiniões pessoais e emocionais, usando dados parciais ou distorcidos. Com a transparência dos resultados aferidos, é possível adotar políticas que sejam de interesse do Brasil e dos brasileiros. Chega de hipocrisia. Enquanto os países concorrentes já cultivam mais de 33 milhões de hectares desta soja e o produto desta área vem sendo consumido por milhões de pessoas sem que um só caso tenha sido relatado, nós brasileiros, sem nenhuma objetividade, estamos deliberadamente retardando um processo por mera ideologia de uma minoria radical. Caso suas teses não sejam comprovadas em relação à soja, como não estão sendo, quem irá reparar os danos e prejuízos causados aos agricultores? Os fatos existem para serem comprovados e avaliados e cabe a nós, sociedade, decidir após a avaliação desses fatos, pensando sobretudo que a agricultura deste País precisa avançar, em benefício de todos nós.

Ivo M. Carraro é diretor executivo da Cooperativa Central Agropecuária de Desenvolvimento Tecnológico e Econômico (Coodetec) .