O pesquisador Ralf Greiner, do Federal Research Center for Nutrition and Food, da Alemanha, já esteve dez vezes visitando o Brasil e é um confesso amante do futebol brasileiro. Mais que isso, Greiner é um especialista em nutrição e, em sua última estada pelo País, deu uma palestra sobre alimentos funcionais e engenharia genética no Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de São Paulo (ICB/USP), em agosto.

Greiner concedeu entrevista exclusiva ao CIB, na qual afirma que os brasileiros deveriam investir mais na biotecnologia como forma de melhorar a qualidade dos grãos para explorar novos mercados. “Além disso, quando as empresas começarem a dizer que é possível melhorar a saúde das pessoas, então estes alimentos (transgênicos) serão mais aceitos”, afirma.

Leia a seguir outros trechos da entrevista:

CIB – O desenvolvimento de alimentos biofortificados vai ganhar a confiança da sociedade?
Ralf Greiner – Eu diria que sim, porque é muito mais fácil distribuir e ampliar as possibilidades nutricionais de populações carentes por meio de alimentos biofortificados, ao invés de suplementos alimentares. Esse é o foco. Na Europa, como a variedade de comida é grande, a questão é simplesmente educar os hábitos alimentares das pessoas, com relação à saúde e nutrição, mesmo que a pessoa não saiba tudo sobre o assunto. Colesterol, por exemplo, é um tema a ser debatido e tem de começar na escola.

CIB – Nos Estados Unidos, as pessoas não têm tanto receio de alimentos geneticamente modificados quanto na Europa.
Greiner – Mas isso é uma questão comercial. Quando as empresas começarem a dizer que é possível melhorar a saúde das pessoas, então estes alimentos serão mais aceitos do que todos os outros. Pensemos nos probióticos, nos redutores de colesterol, nos alimentos enriquecidos com ômega-3 e ômega-6. Comentei na minha palestra o que provavelmente será possível obter com as modernas tecnologias e os benefícios no setor de produção alimentar. Particularmente na Europa sempre ficamos muito focados nos riscos dos novos produtos.

CIB – Esses alimentos enriquecidos poderiam contribuir para combater a subnutrição na América Latina, na África e na Ásia?
Greiner – Poderiam, caso os pesquisadores usassem variedades locais. O que se faz atualmente é tentar modificar os grãos mais importantes da Europa ou dos Estados Unidos. Infelizmente, até agora não vi muito desenvolvimento neste sentido.

CIB – Como o senhor vê o uso da biotecnologia nas questões da agricultura?
Greiner – Acho que vamos continuar no caminho que estamos tomando. Em alguns poucos anos esta técnica será finalmente compreendida como uma tecnologia útil para aumentar a produção de alimentos. Na apenas a única, a engenharia genética é complementar.
Também ficará claro que a biotecnologia é importante até mesmo para o desenvolvimento da pesquisa científica em si. Em meu laboratório, eu não conseguiria fazer muitas coisas não fosse essa tecnologia. Na pesquisa básica, é uma ferramenta da qual precisamos muito.

CIB – Quais as pesquisas o senhor tem desenvolvido?
Greiner – Desenvolvemos métodos de detecção para organismos geneticamente modificados (OGMs). É um trabalho importante para os ministérios alemães porque temos uma lei, precisamos detectar e rotular estes produtos. É engraçado, pois usamos a mesma biotecnologia, mas a diferença é que não criamos nenhum organismo novo.

Estamos ficando cada vez mais rápido nos métodos de detecção de OGMs, na avaliação dos efeitos nas espécies animais e nos fungos que produzem micotoxinas nos grãos.

Outra parte importante, no meu caso, é tentar reduzir os anti-nutrientes dos alimentos. Também fazemos testes de segurança dos transgênicos com relação a alergenicidade. Os europeus levam isso muito em consideração. É seguro ou não? Não é possível cientificamente dizer: ‘sim, 100% de segurança’. Mas os europeus querem 100% de segurança no mercado e isso se torna um grande problema. É impossível. E aí vem a grande discussão, pois querem que procuremos pelos efeitos não-intencionais, mas a pesquisa é toda focada nos efeitos intencionais! Eu não vejo nenhum risco em usar a engenharia genética. Não existem riscos novos. Aliás, os testes de segurança alimentar dos produtos transgênicos são melhores do que os convencionais.

Confira a apresentação do cientista sobre alimentos funcionais e engenharia genética, em inglês.