José Aroldo Gallassini, engenheiro agrônomo e diretor-presidente da Cooperativa Agropecuária Mourãoense – Coamo –, no Paraná, a maior da América Latina, conversou com o CIB sobre agricultura e o uso de biotecnologia nesse segmento no Brasil. Galassini defende a liberação das plantações geneticamente modificadas como mais uma opção para o mercado nacional. “Não devemos ficar de fora do uso dessa tecnologia e a decisão sobre a viabilidade desses produtos – devidamente testados pelos órgãos competentes – deve ficar por conta do consumidor na hora de fazer sua escolha nas prateleiras dos supermercados”, afirma. Isso, segundo o presidente da Coamo, seria democrático e permitiria ao país participar de um importante cenário agrícola que já existe no mundo, “do qual ainda não fazemos parte”, diz. No seu entender, em pouco tempo existirá um mercado mundial dividido em três grandes grupos agrícolas: convencionais, orgânicos e transgênicos. “A grande dificuldade que os OGMs enfrentam no país está diretamente ligada a um jogo econômico, político, ecológico e ambiental….”, avalia.

Leia abaixo a íntegra da entrevista:

 

CIBO senhor poderia contar um pouco da história da Coamo?

 

GALASSINI – A Cooperativa Agropecuária Mourãoense – Coamo – foi fundada em 1970 e hoje congrega 17 mil cooperados, responsáveis por um faturamento de R$ 1,7 bilhão em 2001 e estimativa para este ano de alcançar os R$ 2 bilhões, o que significa uma comercialização de 3,3 milhões de toneladas de grãos.

Inicialmente a nossa entidade reunia agricultores que trabalhavam com trigo e só depois veio a cultura da soja. Com a força desses dois cultivos acabamos formando a maior cooperativa da América Latina. O interessante da Coamo é que ela desenvolve vários trabalhos em prol dos seus cooperados, como o da assessoria técnica e educativa no campo. Para tanto, temos 146 agrônomos, que estão sempre levando às propriedades dos cooperados novidades tecnológicas e soluções para problemas cotidianos.

 

CIBPela sua experiência no campo, qual a avaliação que o senhor faz da biotecnologia como mais uma ferramenta para melhorar o rendimento agrícola?

 

GALASSINI – Acho que se trata de uma tecnologia importante. Hoje o Brasil está tolhido do uso de organismos geneticamente modificados, por força de lei, e o que vemos é que existem grandes áreas, principalmente no Rio Grande do Sul, que já foram invadidas por grãos geneticamente modificados. Até por sermos vizinhos da Argentina, onde os OGMs estão liberados, não é fácil evitar o contrabando de grãos e sementes e, uma vez misturado, é quase impossível separar os transgênicos dos não-transgênicos. Para evitar tanto problema, na minha opinião, o Brasil não deveria ficar de fora do uso dessa tecnologia, dando mais opção ao comerciante e ao consumidor ao permitir a segregação do produto.

 

CIBMas o senhor acredita que o jeito é dividir o mercado?

 

GALASSINI – Acredito que no futuro teremos, no mundo, um mercado bem definido de produtos orgânicos, convencionais e transgênicos. É algo democrático, que acabará de vez com o contrabando de grãos e sementes. No que diz respeito ao preço, não se sabe ainda se existirão tabelas diferenciadas para cada tipo de grão, porém na minha opinião o que deverá haver é a segregação de produtos, levando-se em conta os custos da produção.

 

CIBNo seu entender, porque os OGMs no Brasil enfrentam tantos problemas para serem aprovados, mesmo com parecer favorável de cientistas da  CTNBio?

 

GALASSINI – Creio que o principal problema no Brasil foi a maneira como a questão  lançada no mercado. Inicialmente seria um único produto de uma só empresa. Se fossem lançados conjuntamente vários produtos de diversas empresas, talvez os empecilhos fossem menores. Além disso, se tivessem divulgado benefícios claros para a saúde do consumidor, de alguns transgênicos, no combate ao colesterol ou à diabetes, a situação poderia ser bem diferente.

 

CIBEm termos científicos, o senhor tem conhecimento de algum problema real com a agricultura de grãos geneticamente modificados?

 

GALASSINI – Não existe nada, cientificamente provado, sobre problemas com OGMs. O que existe, sim, é um trabalho de ambientalistas, partidos políticos com ideologias contrárias às modificações genéticas, além de um jogo econômico muito poderoso de quem teme perder mercado para os transgênicos. Certa vez, ouvi um palestrante americano dizer uma frase que nunca esqueci. Segundo ele, se o produto transgênico fizesse mal à saúde, a população americana seria muito menor, uma vez que o número de alimentos com itens geneticamente modificados naquele país é muito grande.

 

CIBE como o senhor acredita que o assunto deva ser trabalhado?

 

GALASSINI – Simplesmente com muita informação. Não há outra forma das pessoas compreenderem que não existem problemas comprovados com esse gênero de alimento.

 

CIBE o senhor, particularmente, é a favor que o Brasil libere o comércio de OGMs?

 

GALASSINI – Em primeiro lugar, bato na tecla do respeito à lei, enquanto é proibido, não se deve plantar. É por isso que defendo uma mudança legal, que permita plantação e venda dos OGMs, sim. A decisão sobre a viabilidade desses produtos – devidamente testados pelos órgãos competentes – deve se dar nas prateleiras dos supermercados. Pelo que se fala, os produtos transgênicos podem até custar menos, o que será um diferencial social importante. Creio que é mais justo o Brasil trabalhar com os três produtos – convencional, orgânico e transgênico – e deixar o mercado decidir o que quer.

 

CIBEm termos comerciais, o Brasil está perdendo dinheiro sem OGMs?

 

GALASSINI – Sem dúvida. Não creio na hipótese de uma reserva de mercado para países que não querem consumir transgênicos. A China, por exemplo, é uma importante cliente brasileira e o governo chinês já decidiu que só vai comprar grãos de países que aprovem os transgênicos. Isso vai impactar o nosso mercado. Portanto, sou a favor do mercado aberto e não fechado em um único gênero de produto. Até porque, devido o contrabando, hoje o Brasil perdeu o controle e a soja aqui produzida é comercializada sem separação entre convencional e transgênica. Para atendermos os nossos clientes com não-transgênicos só há um meio: aprovar o plantio para podermos fazer a segregação.