Em texto publicado em seu blog, o gerente-geral do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais e pesquisador da Rede Agro, Rodrigo C. A. Lima, conta o que viu na abertura do evento e levanta a questão: afinal, o que é ser sustentável?

A caminho do Rio Centro, espaço onde ocorrerão as negociações da Rio+20 com o objetivo de que os países adotem compromissos ambiciosos para lidar com os desafios da sustentabilidade e da erradicação da pobreza, observei um carro elétrico de uma montadora estrangeira.

O primeiro dia da Rio+20 foi marcado pela presença da presidente Dilma na cerimônia de abertura, pelo vai e vem de pessoas tentando entender a localização das salas de reuniões, e pela difícil discussão do texto chamado de “O Futuro que Queremos”, que será a base da decisão da Rio+20.

Creio que essa conferência é a maior já realizada no mundo todo. O trânsito tende a piorar a cada dia, mais e mais pessoas chegam de todos os cantos do mundo, e milhares de debates são feitos em toda a cidade a fim de tentar entender o que é sustentabilidade, ou de impor visões, muitas vezes enviesadas, do que se entende sustentável.

Alguns fatos me chamaram a atenção, e como me sinto motivado a discutir e pensar o que pode ser entendido como desenvolvimento sustentável, que aqui deverá ganhar o nome de economia verde, compartilho minhas primeiras impressões sobre pontos essenciais para pensar o que é sustentabilidade, ao menos da forma como a entendo.

Ao enxugar as mãos nos banheiros, me deparei com uma foto de árvores cortadas empilhadas dizendo algo como: “Você sabia que 1 árvore produz 50Kg de papel? Duas folhas bastam para enxugar as mãos. Use papel de forma consciente, evite a derrubada de árvores”!

A mensagem imediata que a “propaganda” traz é que papel gera desmatamento. Curiosamente, o texto não fala que as tais árvores são plantadas, que sequestram gases de efeito estufa e que provêm de um setor que adota elevados padrões socioambientais no Brasil. Ou seja, ao invés de educar as pessoas para que usem papel de forma consciente, leva a interpretações erradas e enviesadas sobre o que é sustentável.

Outro fato que me chamou a atenção é que na praça de alimentação há uma tenda de um grande supermercado brasileiro. Lá se pode encontrar castanha de baru, típica do Cerrado, barrinhas de cereal, frutas, chocolate e queijo Suíço (“naturalmente sustentáveis”!), pães e outros produtos orgânicos. Um dos restaurantes tem como mote “comida sustentável é orgânica”! Nada contra vender orgânicos, o que é absolutamente comum nessas reuniões. Mas vender a ideia de que orgânico é natural e, por isso, sustentável, é outro exemplo de má educação para sustentabilidade.

Orgânico é bom sim, mas precisa ser produzido dentro de rígidos critérios. Além disso, a população que caminha para 9 bilhões de pessoas em 2050 não pode ser alimentada só com orgânicos, por diversas razões. A comida não orgânica também é natural! E também é saudável e faz bem! A propósito, tem uma marca de sorvete carioca deliciosa que não é orgânico e certamente agradará os gringos!

Deixando de lado esses aspectos do ambiente do Riocentro, dois fatos me chamaram a atenção. Na negociação do que é economia verde, os países não conseguem acordo em relação ao direito de usar de forma soberana seus recursos naturais. Ora, isso parece mais do que natural, mas não há consenso sobre incluir uma expressão assim no texto.

Assumindo que economia verde deve significar ações que reduzam impactos ao meio ambiente, que gerem benefícios sociais e que promovam a redução da pobreza, não tem como deixar de considerar aspectos que cada país e, dessa forma, o direito de utilizarem seus recursos para o desenvolvimento. O difícil aqui é até que ponto os países podem utilizar ou sobre-explorar seus recursos? Desmatamento zero certamente é um tema que entra nesse debate.

Outra cena que me chamou a atenção foi a de um hindu que fez algumas colocações num evento paralelo sobre crianças e consumismo. Contando a experiência de quem mora em uma montanha, longe das cidades, dos supermercados e das lojas, disse que é urgente mudar o sistema econômico que fomenta o consumo. Essa diversidade de visões é uma das coisas que me fascinam nesses encontros, mesmo que nem sempre concorde com o interlocutor.

Concordo com ele que nosso “capitalismo selvagem” gera muita desigualdade, mas prefiro investir na educação para o consumo como uma forma eficaz de evitar desperdícios e minimizar impactos da sociedade sobre o planeta. Certamente educar as crianças desde bebês para que tenham equilíbrio na hora de usar ou comprar alguma coisa é uma tarefa cada vez mais necessária. O problema é que os pais também precisam ter essa educação, e aí aparece um gargalo enorme na maioria dos países, dentre eles o Brasil.

Para puxar outro ponto ligado à educação como forma de criar sustentabilidade, ouvi algumas pessoas reclamando que há inúmeros voluntários para dar informações, mas poucos falam inglês! Cabe a pergunta: pessoas de mais de 150 países devem passar pelo Riocentro, quantas delas falam português? Esse é só mais um reflexo do quanto a educação, ou a falta dela, faz diferença na vida das pessoas e se torna um elemento fundamental na construção de uma sociedade pautada por padrões sustentáveis.

Para terminar, retomo a imagem do carro elétrico importado, que aqui no Brasil custa quase três vezes mais do que no exterior. Impostos absurdos, margens de lucro enormes, benefícios para poucos e salários que não acompanham a escalada dos preços dos produtos e serviços são outros elementos que compõem esse mosaico do que é ou não sustentável. No entanto, é preciso entrar a sério nesses debates para poder construir uma economia verde de verdade.

Rodrigo C. A. Lima, gerente-geral do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais e pesquisador da Rede Agro.

Fonte: SustainAGRO – 14 de junho de 2012