Um apaixonado pelo mercado que envolve a soja no mundo inteiro, Antonio Sartori, diretor analista da corretora Brasoja, sediada em Porto Alegre, no RS, mostra em entrevista ao CIB os números dessa commodity no mundo. Sartori, um defensor da liberação dos cultivos geneticamente modificados no Brasil, afirma que 95% da soja em seu estado não é segregada, portanto, em sendo analisada é transgênica , diz. Segundo o consultor, se o produtor corre o risco de ser processado e ter sua lavoura confiscada, é porque sabe que o ganho com sementes GMO é significativo. Sobre o futuro do produto com o PT na presidência, Sartori mostra-se otimista: “Não creio que os radicais do PT que confundem ideologia com tecnologia prejudiquem a governabilidade do novo governo do novo PT, por isso, acredito na liberação dos cultivos geneticamente modificados,” mesmo que não seja no curto prazo.

CIBQual o panorama mundial do setor de soja, principalmente no que se refere aos fatores que mais influenciam no seu preço?

SARTORI – Como outras commodities, o que mais influencia no seu preço é a análise fundamental da relação produção – consumo – estoques. No caso da soja, o diferencial é que se pegarmos um histórico dos últimos 30 anos, verificamos que a produção de oleaginosas tem crescido numa velocidade maior dos cereais. Isso porque nos últimos 30 anos as mudanças de hábitos alimentares provocaram um aumento do consumo per capita de carnes. Em 1970, esse consumo no mundo era de 27,2 kg por pessoa/ano e em 2002 devemos fechar aos 38,7 kg, ou seja, a humanidade está mudando sua dieta e se tornando mais carnívora, com o crescimento de 42,3%. O aumento mais acentuado foi do consumo de carnes brancas (frango e suíno). Para a produção dessas carnes, são necessárias proteínas vegetais e 68% da produção mundial de proteínas vegetais advém da soja. Ou seja: não se pode analisar o preço da soja apenas avaliando sua produção, seu consumo e estoque, mas a mudança de hábitos alimentares e o PIB per capita, principalmente dos países em desenvolvimento que estão crescendo mais vegetativamente e economicamente do que os países desenvolvidos.

CIB E por que, com toda essa demanda, os preços não estão altos?

SARTORI – Porque, estrategicamente, os EUA, a União Européia e o Japão subsidiam a agricultura, como conseqüência direta de suas histórias de pós-guerra. Depois que uma nação sofre com fome, não aceita qualquer tipo de dependência alimentar. “Não pode existir soberania nacional com dependência alimentar”. Já o produtor brasileiro tem sido obrigado a achar uma solução de sobrevivência num competitivo mercado globalizado, vivendo na pobreza, com baixo custo de investimento, de terra e de mão-de-obra, mas alta tecnologia. Não tenho dúvida que tanto os EUA como a União Européia enxergam essa realidade. Isso explica o porquê de essas nações desrespeitarem acordos feitos no passado desde a rodada do GATT em 86 no Uruguai sobre a progressiva diminuição de subsídios agrícolas. Assim, a importância da soja passou a ser estratégica para os EUA como produtor e para a Europa. Só a União Européia (EU15) este ano deve ter um consumo de 42 milhões de toneladas do complexo e produção que não chega a 2 milhões de toneladas – de uma brutal e absoluta dependência de importações.

CIB E o Brasil como fica nesse cenário?

SARTORI – O Brasil vem crescendo, mas ao mesmo tempo vem sofrendo porque os últimos governos brasileiros não entenderam que o comércio agrícola mundial precisa ser tratado com estratégia de guerra. Os diplomatas do Itamaraty são educados, poliglotas, e bem intencionados, mas não têm o necessário conhecimento de mercado e não têm assessoria quando das discussões dos acordos de comércio, principalmente no âmbito da OMC. Os nossos governantes nos últimos 20 anos não enfocaram a agricultura como atividade produtora de riqueza. Só recentemente, como foi o ano passado, com o saldo da balança comercial do agronegócio de U$ 19 bilhões, o agro passou a ter mais espaço na mídia, importância para o governo e uma correção de imagem junto a sociedade.

CIB Mas isso não tem mudado um pouco?

SARTORI – Entidades e lideranças brasileiras estão pressionando políticos e ministérios, que agora no fim do governo FHC começam a compreender a importância da agricultura no comércio agrícola mundial e sua força como estratégia de relacionamento entre as nações. Não tenho dúvida que estamos começando a assistir uma progressiva reversão do cenário de subsídios agrícolas. Se analisarmos o orçamento comum dos 15 países da União Européia nos últimos anos, é possível verificar que os subsídios agrícolas, que representavam 57,1% desse orçamento comum em 99, caíram para 48,0% este ano e devem cair ainda mais após 2004.

CIBE quais são as conseqüências dessa redução?

SARTORI – Sem dúvida, uma reversão na relação preço/valor. Hoje, temos os preços das commodities agrícolas abaixo do seu real valor. Quando as correções ocorrerem, serão significativas e isso já começa a ocorrer. Ao par de uma análise fundamentalista temos o fator especulativo e a emoção. A pergunta que fica é para onde vai esse fantástico fluxo financeiro e especulativo mundial que existe mesmo em meio a uma crise? Para as soft commodities ou commodities agrícolas que já estão subindo.

CIB E como o senhor avalia o crescimento da soja geneticamente modificada no Rio Grande do Sul?

SARTORI – Há uma série de fatores que devem ser levados em conta. Primeiro, pela proximidade do Rio Grande do Sul com a Argentina, um país que trabalha em quase sua totalidade com soja RR. Segundo, porque depois da crise de 1997, os preços internacionais tornaram quase que inviável a competitividade da produção brasileira. E esse mesmo produtor encontrou na soja geneticamente modificada um menor custo de plantio, com mais facilidade, principalmente por poder usar o sistema de plantio direto em campo nativo.

CIB E quais são as estimativas de plantio dessa soja?

SARTORI – Este ano, a estimativa é de que nesta lavoura de verão mais de 60% da área plantada seja transgênica. Mas eu diria que o alcance é de 95%. A explicação é simples: o comércio interno gaúcho e as exportações de soja GMO free com rastreabilidade e segregabilidade é ao redor de 5 milhões de sacos. A safra gaúcha deste ano foi de 6,3 milhões de toneladas ou 105 milhões de sacos. Portanto, 5% da safra não é geneticamente modificada, tem rastreabilidade e segregabilidade. Os outros 95% são misturados e, portanto, transgênicos. Por isso, é fácil deduzir que no Rio Grande do Sul 95% da produção é transgênica e não-transgênica misturadas. Conseqüentemente a análise seria tido como soja transgênica. É com esse argumento que nós, da Federasul, conversamos no ano passado com o Miguel Rosseto, vice-governador do Estado, que tinha na Secretaria da Agricultura uma campanha ferrenha contra os transgênicos. Desde então, a postura do governo estadual mudou, que parou de bater no assunto.

CIBNo seu entender, o crescimento dos transgênicos no Brasil é irreversível?

SARTORI – Sim. Até porque, qualquer tentativa de reverter esse quadro levaria anos, uns quatro ou cinco. E não acredito que no Rio Grande do Sul, nenhum governo e nenhuma legislação consiga reverter essa situação. Por isso, defendo a legalização, de forma que o produtor possa plantar o que deseja e o consumidor comprar o que preferir. Nesse contexto, defendemos a rotulagem, que valoriza cada tipo de produto seja, GMO, GMO free, ou o orgânico .

CIBE existem mesmo vantagens econômicas no plantio da soja geneticamente modificada?

SARTORI – Sem dúvida. Ninguém melhor do que o produtor para conhecer o custo da sua lavoura. Se o produtor corre o risco de ser processado, de ter sua lavoura confiscada, e mesmo assim planta o produto de forma ilegal – (enquanto não temos a legislação aprovada no Brasil) – é porque ele sabe que o ganho é grande e que a competitividade da soja RR é maior. Trata-se de uma lavoura limpa, com menos trabalho e menos uso e custos com herbicidas (em linha com as preocupações da FAO na Johannesburg Summit 2002 que objetiva a sustentabilidade da agricultura e a preocupação com o meio-ambiente) e conseqüentemente maior produtividade. E isso levando-se em conta o uso de uma semente de soja contrabandeada com variedades não ideais para o cultivo no Brasil, pela qual estão sendo pagos valores absurdos. Se legalizada, o seu preço será menor com conseqüente maior lucratividade.

CIBExistem comparações de custos entre a soja convencional e o produto GM?

SARTORI – Uma pesquisa feita no ano passado pela cooperativa Cotrijal, com 38 produtores no Centro Oeste americano, mostra que a produtividade da soja transgênica é, na média, quatro sacos e meio maior por hectare do que a convencional. Aliado a um menor uso de herbicidas, mesmo com a semente mais cara, a vantagem é de U$ 73,70 por hectare.

CIBE como esperar por uma mudança como essa diante de um governo do PT que já adiantou uma possível moratória dos transgênicos?

SARTORI – Entendo que o governo eleito do PT terá o exemplo do Rio Grande do Sul onde os radicais do partido não estão sendo reeleitos. A contestação é muito grande e, portanto, acredito que vão governar e legislar na direção do interesse da maioria dos produtores brasileiros, sem deixar de apoiar o cultivo de produtos diferenciados como o nicho de mercado dos orgânicos. Precisa ser dito que os petistas são competentes e que conseguiram um sonhado resultado nas urnas. Por isso mesmo, não creio que a esquerda radical prejudique um governo que entrou não apenas com um projeto de quatro anos, mas quem sabe com oito ou doze, e que estabeleceu como meta número um, erradicar a fome no Brasil.