A soja transgênica ainda deixa muitas dúvidas, mesmo sendo a cultura geneticamente modificada (GM) mais plantada no Brasil e no mundo. Presente oficialmente no Brasil desde 1998, quando a adoção de cultivos GM começou no País, a versão transgênica da planta revolucionou a agricultura brasileira.

“Mas será seguro comer soja transgênica?” , “qual a diferença entre ela e um grão convencional?” e “transgênicos fazem mal à saúde?”. Para essas e outras perguntas, reunimos cientistas, agricultores e especialistas que vão explicar que você precisa saber sobre a soja geneticamente modificada.


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O que é a soja transgênica?

Uma soja transgênica nada mais é do que a soja que teve seu código genético modificado pela inserção de um gene de um outro organismo. O objetivo é que a nova planta passe a ter características que a soja convencional não tinha. No Brasil, as características que foram inseridas nas variedades de soja geneticamente modificada (GM) disponíveis no mercado são tolerância a herbicidas e resistência a insetos.

A soja é uma planta rica em proteína originária do leste da Ásia e que nas últimas décadas teve um aumento significativo de sua área plantada a nível mundial. Hoje, são encontrados diversos produtos à base de soja, por exemplo tofu, óleos e grãos.

Soja Transgênica

A utilização dessa tecnologia para melhorar a soja traz inúmeros benefícios, tanto para o consumidor quanto para o agricultor:

  • Otimiza o uso de defensivos agrícolas – ou, como são popularmente conhecidos, agrotóxicos;
  • Ajuda a reduzir o impacto ambiental já que, com menos aplicações de defensivos, há economia de água e combustível;
  • Ajuda a melhorar a saúde dos agricultores uma vez que, com menos aplicações de defensivos agrícolas, os trabalhadores ficam menos expostos a esses produtos;
  • Contribui para a redução de perdas na lavoura e, assim, para o aumento da produtividade e lucro do agricultor

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Origem da soja transgênica

A primeira soja transgênica foi desenvolvida nos Estados Unidos, em 1995. Ela foi modificada para apresentar tolerância a um herbicida, o glifosato. Após anos de pesquisas e testes de biossegurança, foi autorizada para plantio, chegando aos campos norte americanos no ano seguinte. Em 1997, ela foi autorizada na Argentina. Logo os produtores brasileiros na fronteira reconhecem os benefícios dessa tecnologia. Em 1998, a soja transgênica tolerante ao glifosato foi aprovada no Brasil e tornou-se o primeiro cultivo transgênico adotado no País. Essa soja transgênica é conhecida como Roundup Ready (ou RR).

De 1995 até hoje, outras variedades de soja transgênica foram desenvolvidas, a exemplo das resistentes a insetos (conhecida como Bt). Nesse caso, as espécies foram desenvolvidas para resistirem ao ataque de insetos-praga. O gene que confere esta característica é proveniente da bactéria Bacillus thuringiensis. Essa tecnologia já está disponível para agricultores do Brasil, assim como variedades que têm as duas características ao mesmo tempo.

Já estão em fase avançadas de pesquisas variedades da oleaginosa com outras características. No Brasil, por exemplo, a Embrapa Soja trabalha para a obtenção de uma soja resistente à seca. Isso permitiria que permitiria que a planta fosse cultivada em regiões com menos disponibilidade de água. Outra unidade da Embrapa, a Recursos Genéticos e Biotecnologia, trabalha para transformar a soja em uma fábrica de compostos medicinais. No mundo, também há investigações para o desenvolvimento de variedades tolerantes a outros herbicidas, resistentes a outros insetos e até mesmo com atributos nutricionais melhorados.

Cenário da soja transgênica no Brasil

O Brasil é o segundo maior produtor de alimentos transgênicos do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e seguido pela Argentina. O país adota quatro culturas : soja, milho, algodão e, mais recentemente, a cana-de-açúcar. Na soja, 96,5% de toda a área plantada no Brasil com a oleaginosa é transgênica.


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Soja transgênica faz mal para a saúde?

Todo e qualquer produto derivado da biotecnologia que se destine à alimentação humana e animal passa por uma rigorosa avaliação em relação à sua biossegurança antes de ser liberado para consumo. Até hoje, não foram constatados problemas de saúde relacionados com a ingestão de alimentos transgênicos (ou derivados).

A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que os alimentos transgênicos comercializados não apresentam mais riscos à saúde humana do que suas versões não geneticamente modificadas.

Soja transgênica faz mal para o ambiente?

Não. Isso porque a necessidade de aplicar defensivos agrícolas – ou agrotóxicos, como são popularmente conhecidos – para combater pragas diminui. Desse modo, o gasto com água na preparação de produtos é reduzido, assim como o descarte de embalagens, evitando contaminação de rios, solos e animais. A utilização de combustível nos tratores que aplicam os produtos nas lavouras também cai, o que significa um menor número de gases poluentes lançados na atmosfera. Essa tecnologia reduz as perdas da lavoura, consequentemente aumentando a produtividade e reduzindo a necessidade de novas áreas para plantio.

Transgenia ao encontro da cura

A soja transgênica pode ser uma aliada no combate ao HIV, vírus causador da Aids. Segundo artigo publicado na revista Plant Biotechnology Journal, o time de cientistas liderados pelo Dr. Elíbio Rech, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, inseriram na planta um gene de uma cianobactéria. Como resultado, a soja geneticamente modificada passou produzir cianovirina, um composto que pode ser usado para evitar o contaminação pelo vírus.

A escolha da soja se deu pelo fato de a oleaginosa permitir que a cianovirina seja produzida em grande escala e a um custo mais baixo, se comparada a outros métodos. Se essa soja fosse aprovada, um medicamento poderia ser desenvolvido a partir da cianovirina extraída da planta. O impacto de um produto como esse na saúde da população da África, continente com maior incidência de Aids do planeta, poderia ser enorme.

Cianovirina

Como identificar a soja transgênica na alimentação

O alimento transgênico dificilmente pode ser identificado a olho nu. Testes são realizados por grandes empresas para saber se o produto é transgênico ou convencional. No Brasil, se um produto contiver mais de 1% de ingrediente transgênico em sua composição, deve ser identificado. Para reconhecer esses alimentos, basta prestar atenção nas seguintes indicações:

  1. símbolo de transgênico na embalagem. A representação é um triângulo amarelo, com a letra T dentro;
  2. frase “produto produzido a partir de soja transgênica” ou “contém soja transgênica”;
  3. nome da espécie doadora do gene junto à identificação dos ingredientes ou sigla OGM (Organismo Geneticamente Modificado).

É importante ressaltar que a rotulagem não tem relação com a biossegurança dos transgênicos, mas sim com o direito à informação.