Transgênicos são organismos geneticamente modificados (OGM) que receberam um gene de outro ser vivo em seu DNA por meio de técnicas da biotecnologia.

Para o desenvolvimento de um organismo transgênico são necessários muitos anos de pesquisa e milhões de dólares de investimento. O trabalho envolve cientistas de diversas áreas do conhecimento, a exemplo de biologia, genética e agronomia.

Transgênicos

A transgenia pode ser aplicada em diferentes áreas:

  • Agricultura

Muitas culturas já possuem versões transgênicas. Abóbora, alfafa, algodão, berinjela, beterraba, cana-de-açúcar, canola, feijão, mamão, milho e soja são exemplos. Soja, milho, algodão e canola compõem 99% de toda a área plantada com transgênicos no mundo.

  • Alimentação

Bactérias, leveduras e fungos transgênicos atuam diretamente nos processos de fermentação, preservação e formação de sabor e aromas de bebidas e comidas. Por exemplo: queijos, pães, cerveja, vinho e adoçantes.

  • Saúde

Diversas vacinas, medicamentos, kits de diagnóstico, terapias e tratamentos são desenvolvidos por meio da transgenia. A insulina usada por seres humanos no tratamento de diabetes é transgênica.

  • Química

Microrganismos transgênicos produzem enzimas que contribuem na degradação de gordura e são usadas, por exemplo, na composição de detergentes e sabões em pó.

  • Têxtil

Para que tecidos resistam a condições de lavagem, também são usadas enzimas produzidas por microrganismos transgênicos.

Todo organismo geneticamente modificado (OGM) é transgênico?

Não. Transgênico e OGM têm significados distintos. No Brasil, independentemente da origem do material genético, todo o organismo que tiver seu DNA modificado é considerado um OGM. Essa modificação pode ou não inserir um gene externo no DNA do organismo.

Dessa maneira, um OGM pode

  • ter a adição de um gene proveniente de uma espécie não sexualmente compatível (transgênico)
  • ter a adição de um gene de uma espécie com a qual poderia haver um cruzamento (cisgênico)
  • ter um ou mais de seus genes deletados

Teosinto, híbrido e milho moderno. | Reprodução da internet

Desde a descoberta da agricultura e da domesticação de animais já eram realizados cruzamentos entre espécies sexualmente compatíveis na tentativa de obter melhores indivíduos.

Um exemplo é o milho. Agricultores foram cruzando o ancestral do grão (o teosinto) com o objetivo de aumentar número de grãos por espiga, tamanho e cor dos grãos, porte da planta etc. Como resultado desse processo, o milho de hoje é completamente diferente da planta que lhe deu origem.

Com o passar dos anos, descobriu-se como as características são passadas de uma geração para outra e qual o papel da genética neste processo. As técnicas foram aprimoradas e as descobertas tornaram-se cada vez mais detalhadas. Os novos métodos utilizados permitiram que os genes fossem transferidos sem a reprodução sexual. A tecnologia que permitiu esse avanço ficou conhecida por Engenharia Genética.


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Benefícios dos transgênicos

Os transgênicos trazem inúmeros benefícios ao consumidor, ao agricultor e ao meio ambiente. Os principais são:

  • Prevenção e tratamento de doenças

Por meio do uso de técnicas de biotecnologia, são desenvolvidos métodos de diagnóstico de doenças, terapias, tratamentos e vacinas. Alguns produtos que já trazem esses benefícios: insulina, hormônio do crescimento, vacina contra a Hepatite B e vacina contra a dengue.

  • Disponibilidade de alimentos

Com a adoção transgênicos na agricultura, há redução das perdas nas lavouras e, consequentemente, aumento da produtividade. Isso faz com que mais alimentos estejam disponíveis para compor a ração animal e também para o consumidor final.

  • Facilidade de manejo na agricultura

As características introduzidas nos transgênicos disponíveis para a agricultura facilitam o manejo do produtor. A tolerância a herbicidas e a resistência a insetos otimizam o uso de defensivos químicos.

  • Preservação do meio ambiente

Ao otimizar o uso de insumos, os transgênicos permitem que o agricultor use menos água para diluir os produtos e menos combustível para a aplicação.

O que são alimentos transgênicos?

São alimentos que tiveram seu DNA modificado pela inserção de um gene de outro organismo ou que apresentam em sua composição algum ingrediente ou matéria-prima que passou pelo mesmo processo. Pode ser um milho que recebeu um trecho do DNA de uma bactéria, um tofu feito com soja transgênica, uma farinha feita com milho transgênico ou um biscoito que tenha em sua composição derivados desses produtos. Os alimentos transgênicos, cada vez mais, fazem parte da nossa vida.

Estima-se que quase 100% de todos os alimentos processados e bebidas contenham pelo menos um ingrediente derivado de soja e milho. Os grãos, na maioria das vezes, são transgênicos. Além disso, há muitos anos bactérias, leveduras e fungos transgênicos atuam diretamente nos processos de fermentação, preservação e formação de sabor e aromas de comidas e bebidas.

Também há outros cultivos transgênicos em alguns países. Nos Estados Unidos, são plantadas variedades transgênicas de mamão, abóbora e beterraba. No Canadá, chegou ao mercado em 2017 o salmão transgênico. Já em Bangladesh, há uma variedade de berinjela resistente a insetos sendo cultivada.

Como identificar um transgênico na alimentação?

Atualmente, os produtos que contêm transgênicos, do ponto de vista da aparência, são iguais aos não modificados. Entretanto, é possível identificá-los por meio da rotulagem. No Brasil, se um produto contiver mais de 1% de ingrediente transgênico em sua composição, deve ser rotulado. Para reconhecer esses alimentos, basta prestar atenção nas seguintes indicações:

  1. símbolo de transgênico na embalagem. A representação é um triângulo amarelo, com a letra T dentro;
  2. frase “produto produzido a partir de soja transgênica” ou “contém soja transgênica”;
  3. nome da espécie doadora do gene junto à identificação dos ingredientes ou sigla OGM (Organismo Geneticamente Modificado).

É importante ressaltar que a rotulagem não tem relação com a biossegurança dos transgênicos, mas sim com o direito à informação.

Alimentos transgênicos fazem mal à saúde?

A resposta é não. O mito de que os transgênicos fazem mal à saúde não tem embasamento científico. Todo o produto derivado da biotecnologia que se destine à alimentação humana e animal é rigorosamente avaliado em relação à sua biossegurança. Apenas depois de avaliado ele é liberado para consumo.

Até hoje, não foram constatados problemas de saúde relacionados com a ingestão de alimentos transgênicos (ou derivados).

A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que os alimentos transgênicos comercializados não apresentam mais riscos à saúde humana do que suas versões convencionais.

É importante destacar que a maioria das plantas transgênicas destinam-se à exportação para alimentação animal. Quando consumidos por animais ou por seres humanos, são digeridos da mesma maneira que um não transgênico. Além disso, não existe diferença na quantidade de nutrientes entre alimentos transgênicos e não transgênicos.


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Transgênicos na saúde

A transgenia também contribui para avanços na medicina. Diversas vacinas hoje disponíveis foram desenvolvidas por meio de técnicas de biotecnologia. É o caso das vacinas contra dengue, hepatite B e outras usadas para imunizar animais. Centros de pesquisa e tratamento no mundo estão utilizando transgênicos para realizar tratamentos, diagnósticos e desenvolver medicamentos.

Uma das primeiras aplicações da transgenia na saúde é também uma das mais úteis: a produção de insulina por microrganismos transgênicos. Até a década de 1980, ela extraída de bois e porcos e, frequentemente, causava alergias. De lá para cá, diabéticos do mundo inteiro se beneficiam dessa tecnologia. Isso tornou a insulina mais segura e aumentou a eficiência dos tratamentos.

Outros bons exemplos das várias aplicações da transgenia na saúde são o hormônio do crescimento e a vitamina C.

Além disso, insetos estão sendo geneticamente modificados para carregarem um gene que, quando transmitido à prole, não deixa que ela se desenvolva. É o caso do mosquito da dengue transgênico, aprovado no Brasil em 2014. Ele é idêntico ao Aedes aegypti – exceto por dois genes modificados inseridos. Um deles faz as larvas do mosquito brilharem sob uma luz especial (para que elas possam ser identificadas pelos cientistas). O outro impede que os filhotes cheguem à fase adulta, reduzindo, assim, a população do vetor da doença.

Transgênicos na agricultura

Embora não tenha sido o primeiro a utilizar a transgenia, o setor da agricultura é o mais famoso. Isso porque boa parte da soja, milho, algodão e canola plantados no mundo hoje são transgênicos. Além disso, por serem commodities, mercadorias vendidas em grandes quantidades globalmente, milhões de toneladas são produzidas todos os anos.

Área plantada com transgênicos no mundo, por cultura. | ISAAA, 2018

De acordo com dados do Serviço Internacional para Aquisição de Aplicações em Agrobiotecnologia (ISAAA), em 2017 foram cultivados 189,8 milhões de hectares com culturas transgênicas. A soja foi responsável por metade da área, enquanto as outras culturas pelos outros 50%.

O Brasil é o segundo país que mais planta transgênicos no mundo. Cultiva-se soja, milho, algodão e, mais recentemente, cana-de-açúcar. Feijão e eucalipto, embora já estejam liberados para plantio, ainda não são plantados em comercialmente.

Entre as culturas que já estão no campo, é na da soja que se observa a maior taxa de adoção: 96,5% de toda a soja do Brasil é transgênica. A produção da oleaginosa foi a primeira a receber autorização da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), em 1998.

No Brasil e no mundo, grande parte dos transgênicos plantados apresenta características que facilitam a agricultura. As características mais comuns adicionadas às plantas são tolerância a herbicidas e resistência a insetos. A primeira foi obtida pela inserção de gene de uma bactéria do solo chamada Agrobacterium tumefaciens. Também é de uma bactéria, a Bacillus thuringiensis, o gene que confere às plantas resistência a insetos. Há variedades, inclusive, que apresentam os dois benefícios combinados.

Embora o benefício dos transgênicos na agricultura seja percebido mais diretamente pelo produtor, essa tecnologia também impacta o consumidor.

Imagine a seguinte situação: você vai ao supermercado e percebe que diversos alimentos subiram de preço. O motivo? A safra de soja e milho sofreu perdas consideráveis pelo ataque de pragas. Por isso, esses ingredientes, presentes em diversos alimentos, ficaram mais caros. Ou seja, quando o agricultor não consegue controlar insetos e plantas daninhas, impacta, por exemplo, no preço dos alimentos. O desenvolvimento dessa tecnologia melhorou a produtividade do agricultor e também ajudou a garantir alimentos mais saudáveis na nossa mesa.

História dos transgênicos

O primeiro produto derivado de um organismo transgênico chegou ao mercado em 1982. Era insulina, produzida por uma bactéria geneticamente modificada com um gene humano. As primeiras plantas transgênicas começaram a ser comercializadas na China, na década de 1990. A comercialização iniciou com uma linhagem de tabaco que continha um gene que auxiliava no controle de pragas.

Logo em seguida, os Estados Unidos liberaram a comercialização de um tomate com um gene que retardava seu amadurecimento. Esses dois produtos, entretanto, já saíram do mercado. A cultura que inseriu, definitivamente, os transgênicos na agricultura foi a soja, aprovada nos Estados Unidos, em 1995.

No Brasil, as plantas transgênicas chegaram em 1998, quando a CTNBio aprovou o plantio de uma soja tolerante a herbicidas. Desde então, outros 129 produtos geneticamente modificados (GM) foram modificados. Entre eles estão plantas, vacinas, microrganismos, medicamentos e até insetos.


O que é e o que faz a CTNBio?

CTNBio é a sigla para Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, órgão vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. A existência da comissão é prevista na Lei de Biossegurança (11.105/05). Essa legislação exige que qualquer OGM passe por uma criteriosa avaliação.

De acordo com o texto da norma, é a CTNBio que deve fazer isso. A comissão também é responsável por acompanhar o desenvolvimento e o progresso técnico-científico nas áreas de biossegurança, biotecnologia e bioética.


Durante todo o tempo de pesquisa e desenvolvimento de transgênicos não houve registro de malefício à saúde humana, animal ou ao meio ambiente. Isso confirma a segurança desses produtos, desde o princípio atestada por pesquisadores e agências reguladoras.

Em 2016, mais de 100 vencedores do Prêmio Nobel manifestaram publicamente apoio aos transgênicos. No documento, disponível no site Support Precision Agriculture, eles pedem ao Greenpeace e seus apoiadores que “reexaminem a experiência de agricultores e consumidores em todo o mundo com lavouras e alimentos modificados por meio da biotecnologia, reconheçam os pareceres da comunidade científica e das agências reguladoras e abandonem a campanha contra os OGM em geral”.

As culturas transgênicas estão entre os alimentos mais testados na história da agricultura. Estima-se que dois trilhões de refeições contendo transgênicos tenham sido consumidas no mundo nos últimos 13 anos. Não houve um único caso de reação adversa à saúde.

Por que a Europa rejeita os transgênicos?

A agricultura de commodities, como é o caso de 99% dos transgênicos plantados hoje, não é o forte da União Europeia (UE). A UE restringe o plantio, mas não a importação. Todos os anos, o bloco importa milhões de toneladas de grãos transgênicos, inclusive do Brasil. A lista de transgênicos que a Europa importa é longa.

Não há como saber ao certo o que leva o bloco a restringir o plantio. Dados econômicos e históricos levam a concluir que as restrições ao plantio são decisões políticas, não de biossegurança. A agricultura europeia é altamente subsidiada e muitos alimentos consumidos no continente são importados. Por isso, a decisão de restringir o plantio não tem um impacto devastador na economia. A opção tem grande repercussão na opinião pública.

Transgênicos em resumo

Os transgênicos podem salvar vidas, alimentar a população mundial, que cresce a cada ano, gerar emprego e renda. Além disso, as tecnologias de modificação genética tem um enorme potencial, que só agora começa a ser explorado. Ainda sim, há muitas polêmicas envolvendo os transgênicos.

Em um futuro próximo, podemos esperar alimentos com composição nutricional melhorada, plantas que produzem compostos úteis para a medicina e tratamentos e prevenções de doenças. Também poderá ser possível substituir modelos econômicos não renováveis por outros de base biológica.

 

¹ CARVALHO, A.P. Patentes para biotecnologia, Ciência Hoje, p. 72-75, jul. 1992