A malária é uma doença infecciosa febril aguda, causada pelo protozoário Plasmodium que, por sua vez, é transmitido para os seres humanos por meio do mosquito Anopheles. O tratamento da malária é possível se a doença for identificada em tempo. Caso contrário, a contaminação pode levar o paciente à morte. Buscando alternativas para tornar o tratamento da malária ainda mais eficiente, pesquisadores brasileiros criaram em laboratório um plasmódio transgênico para testar medicamentos usados no combate à doença.

A ideia dos pesquisadores é engenhosa. Eles introduziram no DNA do parasita uma sequência genética responsável pela produção de uma nova proteína. Essa proteína identifica quando o plasmódio é inibido por um medicamento. Ou seja, reproduz-se em laboratório o processo de infecção do mosquito que transmite a doença. A técnica será utilizada para testar novas drogas que poderão ser adotados no tratamento da malária.

O estudo foi publicado na Antimicrobial Agents and Chemotherapy por pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo (USP). O trabalho também teve colaboração do National Center for Advancing Translational Science, órgão do National Institutes of Health (Estados Unidos).


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A malária e o seu processo de infecção

O parasita da malária necessita de dois tipos de hospedeiros para completar o seu ciclo de vida: os humanos e as fêmeas de mosquitos do gênero Anopheles. Ao se alimentar de sangue humano, o mosquito Anopheles injeta os parasitas encontrados em sua saliva na corrente sanguínea humana. Os parasitas no interior do corpo humano viajam até as células do fígado, onde crescem, se multiplicam e atingem a corrente sanguínea.

Quando uma pessoa infectada é picada pela fêmea do mosquito Anopheles, ocorre a transferência dos parasitas presentes no sangue humano para o interior do corpo do mosquito. Os parasitas se alojam no estômago do mosquito e após alguns dias migram para suas glândulas salivares. É nesse momento que, se o mosquito picar outra pessoa, ele a contaminará com o parasita causador da malária.

A meta da pesquisa era desenvolver um modelo experimental para testar, em grande escala, drogas capazes de impedir a evolução da doença no mosquito transmissor. O parasita transgênico desenvolvido pelos cientistas codifica uma enzima que é produzida apenas quando o plasmódio atinge determinado estágio de seu ciclo evolutivo nos insetos.

Para realizar os ensaios, a forma do plasmódio que infecta os insetos foi colocada em uma placa de laboratório em um meio de cultura que imita as condições encontradas pelo parasita no mosquito.

“Assim, o parasita “acha” que está no mosquito, produz a enzima que reage com o substrato da placa, emite uma luz e permite que os pesquisadores saibam que determinada substância é eficaz contra o parasita.”, afirma Daniel Bargieri, coordenador da pesquisa, em sua entrevista para o

Inicialmente, foram testadas 400 substâncias, das quais nove se mostraram eficientes contra o parasita causador da malária. “Essas drogas funcionariam como uma espécie de ‘cura’ do mosquito”, afirma Bargieri. Isso quer dizer que eliminariam a capacidade de o inseto de transmitir a doença.


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Como é feito o tratamento da malária?

Segundo o Ministério da Saúde, no geral, após a confirmação da malária, o paciente recebe o tratamento em regime ambulatorial, com comprimidos que são fornecidos gratuitamente em unidades do Sistema Único de Saúde (SUS). Somente os casos graves deverão ser hospitalizados de imediato. O tratamento indicado depende de alguns fatores, como a espécie do protozoário que infectou o paciente; a idade do infectado e condições especiais (tais como gravidez e a ocorrência de problemas de saúde simultâneos).

O tratamento da malária visa “atacar” o parasita transmissor em diferentes momentos de seu ciclo evolutivo, tanto nos seres humanos quanto nos insetos. Essas abordagens podem ser resumidas da seguinte maneira:

  1. interrupção da esquizogonia sanguínea, a fase em que o parasita atinge a corrente sanguínea, infecta as células do sangue e aparecem os sintomas;
  2. destruição de formas latentes do plasmódio, evitando as recaídas;
  3. interrupção da transmissão do parasito, pelo uso de drogas que impedem o desenvolvimento de formas sexuadas do parasita.

Para atingir esses objetivos, diversas drogas são utilizadas, cada uma delas agindo de forma específica para impedir o desenvolvimento do parasito no hospedeiro.

 

Fonte: Antimicrobial Agents and Chemotherapy, Jornal USP e Ministério da Saúde, junho de 2019