CIB – Qual o objetivo do desenvolvimento dessa nova variedade de tomateiro?
Peres –Eu sou professor na Esalq de fisiologia vegetal, que é a parte funcional da botânica. Para você entender como é que as plantas funcionam, você tem diversas abordagens. A mais utilizada atualmente é o uso de mutantes. E a espécie de planta mais usada é uma espécie vegetal chamada Arabidopsis thaliana, uma planta-modelo. Ela é uma erva daninha que, apesar de não ter importância econômica nenhuma, é muito usada para estudos genéticos, pois tem três requisitos importantes. O primeiro é um ciclo de vida muito rápido, ou seja, de uma geração pra outra leva pouco tempo. O segundo diz respeito ao porte pequeno, logo não requer muito espaço para seu cultivo. Por fim, trata-se de uma planta com genoma pequeno, o que facilita, digamos, "entender" a Arabidopsisis melhor do que outras plantas de genomas maiores. A nossa proposta é usar esse Micro-Tom, essa variedade do tomateiro, com se fosse uma Arabidopsis, ou seja, com as mesmas vantagens: ele tem um porte pequeno, um ciclo bem rápido e o genoma do tomateiro é relativamente pequeno. Só que com a vantagem de ser uma espécie cultivada de valor econômico. Isso possibilita fazer uma ligação direta entre pesquisa básica e pesquisa aplicada. Assim, em pesquisas para desvendar processos fisiológicos básicos, os cientistas podem ter uma aplicação direta na agricultura, pois estão sendo desvendadas em tomateiros.

CIB – Qual o caminho para obter esse tomateiro?
Peres – Na verdade, a pesquisa na área da fisiologia é muito competitiva, ou seja, é difícil uma pessoa sozinha fazer tudo. Então, cada um dá sua contribuição. Eu vou citar onde está a nossa. A variedade original chamada Micro-Tom foi criada na Flórida, na década de 80, mas como uma planta ornamental. Em 1997, um pesquisador de Israel teve a idéia de usar essa variedade ornamental para pesquisas genéticas. A nossa contribuição é um terceiro passo. Entendemos que elas poderiam ser usada em pesquisas, como coleções de mutantes para desvendar processos fisiológicos. E, para isso, logo percebemos que tinha um requisito que esse Micro-Tom ainda não tinha.

CIB – Qual requisito?
Peres – Hoje em dia, para se fazer pesquisa fisiológica, uma das coisas que se faz muito é manipular biotecnologicamente o modelo. Se o objetivo é descobrir funções de genes, é muito importante que se possa manipular esses genes. Uma das maneiras de manipular isso é introduzir genes na planta ou "nocautear", ou seja, interromper a função de um gene. Tudo isso exige protocolos biotecnológicos que passam pela regeneração in vitro – a capacidade de você clonar uma planta in vitro. A Arabidopsis tem essa capacidade, algo que o Micro-Tom tinha muito pouco. Então, a primeira parte do nosso trabalho foi, por meio de cruzamento de genética clássica, passar essa característica para o Micro-Tom. Trouxemos esse gene que aumenta a capacidade de ser cruzado in vitro de uma espécie selvagem: o Lycopersico peruvianum. O Micro-Tom passou a ser um modelo mais próximo de Arabidopsis. Quer dizer, muitos outros pesquisadores do mundo inteiro que já estão usando Micro-Tom vão usar esse novo modelo, ainda mais adequado.

CIB – Comparando com um tomateiro comum, quais as características do modelo criado?
Peres – Se fossemos fazer pesquisas com um tomateiro comum teríamos que dispor de um espaço e um tempo muito maior do que quando usamos o Micro-Tom. Outra coisa importante é que essa nova variedade que criamos não é muito diferente do tomateiro comum, pois o avanço que obtivermos por meio desse estudo tem que valer também para o tomateiro convencional.

CIB – Qual a diferença no ciclo de vida?
Peres – Na pratica, ele acaba reduzido quatro vezes. Normalmente quem trabalha com melhoramento de tomateiro comercial, leva um ano para obter uma nova geração. A pessoa acaba plantando a variedade no campo, o que depende muito de condições climáticas ideais. Embora ele pudesse ter mais de uma geração por ano, acaba trabalhando com o ano agrícola, uma vez só. O que acontece com essa nova variedade? Além de o seu ciclo cair pela metade, podemos passar a cultivá-lo – por ser pequeno – em estufa, o que propicia vários ciclos em um ano. Ou seja, acompanhando a evolução histórica: ele foi criado para uso ornamental, alguém sugeriu seu uso genético, nós estamos propondo um uso em fisiológico e, agora, num quarto nível, também propomos que se faça melhoramento do tomateiro comercial. É como se fosse uma maquete: nós melhoraríamos numa escala reduzida e o que der certo passamos para o tomateiro comercial.

CIB – Essa primeira etapa do trabalho já esta concluída?
Peres – Sim, e já foi publicado numa revista chamada Plans Science. Pesquisadores de todo o mundo já estão pedindo cópias do artigo e alguns já estão solicitando sementes.

CIB – Quais aplicações dessa variedade?
Peres – A nossa próxima meta é desenvolver ainda mais esse modelo para que também possamos usá-lo para responder nossas perguntas sobre o funcionamento dos hormônios vegetais. Esse é o melhor modelo que se tem para estudar o amadurecimento de frutos – apesar de a Arabidopsis ser a mais utilizada atualmente para se estudar fisiologia, não dá para se estudar amadurecimento de frutos com ela, pois seu fruto é do tipo seco. O tomateiro é um modelo para fruto carnoso. Existem pesquisadores que estão estudando a relação entre um determinado fungo e uma planta, por exemplo, o chamado Micorriza, muito importante para a absorção de fósforo na agricultura. Ele não estabelece relação com a Arabidopsis, mas estabelece com o nosso tomateiro.

CIB – E quais as perspectivas de evolução do projeto? Existe alguma expectativa de expansão da aplicação da variedade?
Peres – Em próximas etapas o que queremos fazer são dois estudos mais amplos. Um deles é verificar a funcionalidade desse modelo para fazermos o tagging, quer dizer, a etiquetagem de gene em tomateiros, um estudo de genoma funcional. O processo consiste na correspondência entre uma planta transgênica e cada um dos genes, o que permite saber a função daquele gene. O nosso modelo é adequado para isso, pois é facilmente clonado in vitro, o que vai permitir produzir um grande número de plantas transgênicas.
Para o último grande projeto que temos em mente estamos procurando parceiros. Queremos usar esse modelo para o melhoramento que mencionei: a maquete para o melhoramento comercial. Para isso, é fundamental que o modelo seja pequeno.

CIB – Já existem trabalhos para o melhoramento comercial do tomateiro?
Peres – Essa é uma proposta nossa de melhoramento que ainda não é usada. Ou seja, fazer um melhoramento numa escala menor e depois levar para uma escala maior, isso ninguém tem feito. Estamos procurando parceiros. Isso aumentaria muito a velocidade com que os pesquisadores gerariam variedades melhoradas de tomateiro, o que pode ser estendido, inclusive, para outras culturas.

CIB – O seqüenciamento genético do tomateiro já foi feito?
Peres – Não, ainda não foi feito. As únicas plantas que tem o seqüenciamento completo hoje são a Arabidopsis e o arroz. O tomateiro seria o terceiro candidato. E há um consórcio nos Estados Unidos trabalhando nisso.