Os Estados Unidos estão enfrentando um desaparecimento em massa das abelhas de criação, um fenômeno que, aparentemente, estaria ligado a um vírus identificado em 2004 em Israel, afirmam os cientistas. A descoberta, anunciada nesta quinta-feira, deve permitir a explicação destes casos misteriosos e preocupantes, que estão sendo registrados em muitos lugares no mundo, com conseqüências para apicultores e produtores agrícolas.

Os pesquisadores recorreram às técnicas de sequenciamento genético dos microrganismos dos intestinos das abelhas que vivem tanto nas colméias sãs quanto nas contaminadas pelo mal. As mostras foram extraídas nos Estados Unidos durante um período de três anos. Eles puderam estabelecer que uma variante do vírus batizado IAPV (Israeli Acute Paralysis Virus) que paralisa as abelhas “poderia ser a causa potencial” desta mortandade, explicou numa entrevista coletiva, Ian Lipkin, diretor do centro de infecção e imunologia da Universidade Colúmbia.

O IAPV foi o único microrganismo presente em quase todas as mostras extraídas das colméias afetadas, destacam os autores deste estudo publicado na revista Science de 7 de setembro. “Nossa próxima etapa é determinar se este vírus é a única causa deste fenômeno de despovoamento em massa das colméias – chamado em inglês de CCD (Colony Collapse Disorder)” ou se coexiste com outros fatores como micróbios, toxinas, inseticidas ou a nutrição dificultada pela seca, continuou ele.

De acordo com Jeffery Pettis, entomologista do ministério americano da Agricultura e um dos autores do estudo, “esta pesquisa revela uma boa pista , mas é pouco provável que o IAPV seja a única causa”. As análises genômicas de abelhas de criação importadas da Austrália desde 2004 mostraram, na verdade, que elas foram infectadas por este vírus, mas que as colméias não desenvolviam o CCD. Esta diferença parece ser explicada pelo fato de as abelhas na Austrália não serem infectadas pelo mite Varroa – um parasita comum nas colméias americanas que enfraquece o sistema imunológico.

Os cientistas também consideraram “pouco prováveis” muitas hipóteses desenvolvidas neste último mês para tentar explicar a misteriosa desaparição de bilhões de abelhas. Entre estas teorias figura uma que atribui às radiações emitidas pelos telefones celulares que desorientariam as abelhas e as culturas geneticamente modificadas. Por outro lado, ressaltou Diana Cox-Foster, entomologista da Universidade da Pensilvânia e principal autora deste estudo, “alguns inseticidas químicos enfraqueceriam as abelhas, deixando-as mais vulneráveis ao vírus”.

O CCD é um fenômeno observado sobretudo nos Estados Unidos de uma maneira amplificada: as abelhas adultas desaparecem da colméia, deixando o mel, o pólen recolhido, as abelhas jovens e as rainhas. E o mais misterioso: nenhum corpo de abelha é encontrado. Estima-se que de 50% a 90% as colméias comerciais foram afetadas pelo CCD por três anos nos Estados Unidos. Depois, casos parecidos foram registrados na Alemanha, Espanha e Grécia. Esta situação sem precedentes inquieta os apicultores, os produtores de frutas e legumes, assim como os poderes públicos americanos.

As abelhas domésticas garantem a polinização de mais de 90 variedades de frutas e legumes cujas colheitas trazem 15 bilhões de dólares aos Estados Unidos por ano.

Fonte: Agência France Press – 08 de setembro de 2007